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Uso de calçados influencia na estrutura óssea do tornozelo, aponta estudo

Uso de calçados influencia na estrutura óssea do tornozelo, aponta estudo

Pesquisadores da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, revelaram que o uso frequente de calçados pode estar associado a alterações na estrutura interna dos ossos do tornozelo. A pesquisa, publicada em 8 de setembro no Journal of Anatomy, sugere que o hábito de calçar sapatos pode impactar a reorganização do osso trabecular, uma porção esponjosa situada no interior dos ossos, composta por pequenas estruturas semelhantes a hastes e placas que se adaptam às forças exercidas sobre o corpo ao longo da vida.

Para investigar essa hipótese, a equipe de cientistas comparou imagens do tornozelo de dois grupos distintos: um formado por indivíduos que utilizam calçados com frequência e outro por pessoas que viveram em comunidades onde o uso de sapatos era pouco comum. As análises utilizaram tomografias computadorizadas para gerar imagens tridimensionais do tálus, um osso localizado no tornozelo que conecta a perna ao pé e desempenha papel fundamental na mobilidade.

O estudo envolveu a análise de 56 adultos norte-americanos que faleceram a partir dos anos 2000, além de imagens de pessoas que viveram na segunda metade do século XIX, na qual o uso de calçados era raro. Este grupo incluía 13 habitantes das Ilhas Andaman, duas pessoas do sul da África e uma do centro do continente africano. As diferenças constatadas entre os grupos evidenciaram variações na distribuição do osso trabecular, especialmente na quantidade de tecido na região anterior do tornozelo, que é mais envolvida em movimentos de maior flexão do pé, como ao agachar ou escalar.

Nos indivíduos que não utilizavam calçados, a maior quantidade de tecido trabecular estava concentrada na parte frontal do tornozelo, além de apresentarem orientações mais variadas nas estruturas internas, indicando que o tornozelo dessas pessoas recebia forças de diferentes direções durante os movimentos. Em contrapartida, aqueles que usavam calçados apresentaram maior volume geral de osso trabecular, com maior concentração de tecido nas regiões internas e superiores do tornozelo. Além disso, as estruturas dessas pessoas tendiam a seguir direções mais homogêneas, o que sugere que o uso de calçados pode restringir certos movimentos do tornozelo e modificar a distribuição das forças exercidas sobre ele.

Os pesquisadores levantaram a hipótese de que o uso de calçados, especialmente modelos que deixam o pé em posição mais estendida, como os sapatos com salto, pode alterar a forma como o peso do corpo é distribuído pelo tornozelo. Como o osso trabecular é sensível às cargas mecânicas, essas mudanças podem ocorrer ao longo da vida em resposta às forças sofridas durante atividades diárias.

A relevância do estudo também se estende ao campo da arqueologia e à compreensão da evolução humana. A análise da estrutura óssea dos tornozelos em fósseis pode fornecer pistas sobre os modos de locomoção de espécies extintas de hominídeos, uma vez que diferentes formas de caminhar e usar os pés deixaram marcas na anatomia óssea ao longo de milhões de anos. No entanto, comparar esses fósseis com ossos de indivíduos atuais apresenta dificuldades, uma vez que o estilo de vida moderno, marcado pelo uso constante de calçados, influencia na formação óssea de maneira distinta das populações antigas.

Por fim, os autores do estudo destacam que, embora os resultados sugiram uma relação entre o uso de calçados e as diferenças na estrutura óssea do tornozelo, não é possível afirmar que o uso de sapatos seja a causa direta dessas mudanças. Outros fatores, como o tamanho corporal e o estilo de vida, também podem influenciar na morfologia óssea. Assim, novas pesquisas serão necessárias para esclarecer o grau de influência do calçado na formação do osso e compreender melhor as adaptações do corpo humano às mudanças de comportamento ao longo do tempo.

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