Os altos custos de financiamento permanecem como o principal obstáculo enfrentado pelas empresas do setor industrial brasileiro na contratação ou renovação de operações de crédito, de acordo com levantamento divulgado nesta sexta-feira, 9 de outubro, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A pesquisa revela que 76% das empresas que tiveram dificuldades para obter recursos de curto ou médio prazo, ou seja, com duração de até cinco anos, apontaram as taxas de juros como a principal barreira. Para operações de longo prazo, superiores a cinco anos, esse percentual foi de 68,9%, indicando que a questão dos juros elevados afeta significativamente as empresas independentemente do prazo do financiamento.
De acordo com Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI, o cenário pode ser atribuído ao ciclo de elevação dos juros imposto pelo Banco Central do Brasil. Desde o início de 2023, a taxa básica de juros, a Selic, iniciou o ano em 15%, e, ao longo do período, o Banco Central adotou uma postura bastante cautelosa na redução dessa taxa. Colusso explica que a diminuição dos juros, embora seja uma estratégia de estímulo à economia, leva tempo para se refletir no custo do crédito para as empresas, que ainda se mostram bastante elevadas.
Outro aspecto destacado pela pesquisa é a exigência de garantias reais como uma das principais dificuldades na obtenção de crédito. Essa foi citada por 33,4% das empresas que enfrentaram problemas na contratação ou renovação de financiamentos de curto ou médio prazo, e por 31,5% das que buscavam operações de longo prazo. Além disso, a burocracia foi apontada como a terceira maior dificuldade para o acesso ao crédito de curto e médio prazo, com 13,6% das respostas. Para operações de longo prazo, o prazo de carência inferior ao desejado foi mencionado por 18,9% das empresas como um obstáculo.
A pesquisa também aponta que, no universo das empresas que buscaram financiamento de longo prazo, mais da metade, ou seja, 54%, optaram por não procurar por novas operações ou extensões de financiamentos existentes, possivelmente devido às dificuldades de acesso. Entre aquelas que conseguiram obter ou renovar créditos de longo prazo, 15,5% tiveram sucesso, enquanto 9,2% tentaram, mas não conseguiram obter os recursos necessários.
Outro dado importante revela que uma parcela significativa das empresas está recorrendo a financiamentos de longo prazo para cobrir despesas correntes, o que é considerado uma prática incomum e preocupante. Entre as empresas que buscaram esse tipo de crédito, 28,7% indicaram que o principal objetivo era o capital de giro, utilizado para despesas do dia a dia, como pagamento de salários, compra de materiais e insumos. Essa proporção ultrapassa os percentuais referentes a investimentos em máquinas e equipamentos, que chegaram a 23,6%, e construção ou instalações, com 11,6%.
Colusso destaca que o uso de crédito de longo prazo para financiar despesas operacionais, como o capital de giro, é incomum e evidencia dificuldades adicionais enfrentadas pelas empresas na gestão de fluxo de caixa. Normalmente, operações de maior duração são reservadas para investimentos em bens duráveis, como máquinas e instalações, que trazem retorno a médio e longo prazo. A prática de recorrer a financiamentos de longo prazo para cobrir despesas rotineiras indica um cenário de aperto financeiro e de dificuldades no acesso a crédito de curto prazo, agravando o quadro de dificuldades enfrentado pelo setor industrial brasileiro.


