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Governo tem apenas duas de oito prioridades aprovadas pelo Congresso em 2026, com pautas cruciais emperradas

Governo tem apenas duas de oito prioridades aprovadas pelo Congresso em 2026, com pautas cruciais emperradas

O governo federal enfrenta dificuldades para cumprir suas metas legislativas de 2026, tendo conseguido aprovar apenas duas das oito propostas consideradas prioritárias pelo Congresso Nacional. Textos de grande relevância, como a PEC que põe fim à escala 6×1 e a regulamentação dos transportes por aplicativo, seguem paralisados, impactando a estratégia política do Poder Executivo e a percepção de governabilidade no período eleitoral.

O ciclo legislativo de 2026 começou sob a expectativa do governo de aprovar oito iniciativas consideradas prioritárias. No entanto, até o momento, apenas duas pautas entraram de fato em avaliação pelos plenários da Câmara dos Deputados e do Senado: a medida provisória que altera regras da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para condutores vinculados ao RNPC e a Lei Antifaçção, destinada a dificultar a atuação de facções criminosas. As demais propostas permanecem presas em diferentes estágios de tramitação, demonstrando um acentuado desalinhamento entre o Palácio do Planalto e as casas legislativas no ano eleitoral.

Pautas com maior peso político e seus entraves

As metas para 2026 foram apresentadas no fim de 2025 pelo então líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), hoje ministro das Relações Institucionais. Na ocasião, Guimarães detalhou oito temas considerados prioritários pelo Executivo, mas apenas seis deles ainda dependem de encaminhamentos no Congresso. Entre as pautas em dificuldade, a PEC do fim da escala 6×1 figura como uma das mais sensíveis, ganhando contornos de tema de campanha presidencial para 2026. A proposta, apresentada pelos deputados Reginaldo Lopes (PT-MG) e Erika Hilton (Psol-SP), já foi aprovada na Câmara, mas permanece parada no Senado desde o fim de maio.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), freou o avanço da PEC, sinalizando a necessidade de uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para destravar o tema. O encontro, entretanto, não ocorreu, e o senador declarou que não pautaria o texto para votação antes das eleições. Para o governo, a PEC representa uma bandeira estratégica, com o objetivo de apresentá-la como uma conquista do governo e do próprio terceiro mandato de Lula. A perspectiva interna é de votar a matéria em agosto, mas, sem consenso, o caminho mais provável é utilizá-la como promessa de campanha ou adiá-la para 2027, caso não haja acordo favorável ainda neste período.

Outra prioridade que depende de acordos é a regulamentação dos transportes por aplicativo. O texto em tramitação na Câmara busca estabelecer direitos aos trabalhadores das plataformas e criar obrigações para as empresas no relacionamento com entregadores. O Projeto de Lei Complementar (PLP) em análise exige, entre outros pontos, compensações por distâncias adicionais percorridas nas entregas. A tendência, segundo analistas, é de que a votação também tenha o adiar para o próximo ciclo legislativo, já que há divergências entre motoristas de aplicativo e as empresas de tecnologia, dificultando a convergência necessária para a aprovação.

Mais uma peça de forte carga eleitoral é a PEC da Segurança Pública, já aprovada pela Câmara, mas que encontra obstruções no Senado. O projeto propõe maior integração entre órgãos de segurança, atribui ao SUSP (Sistema Único de Segurança Pública) status constitucional e constitucionaliza o Fundo Nacional de Segurança Pública e o Fundo Nacional Penitenciário. O Planalto desejava explorar a temática na campanha de 2026; a oposição, por sua vez, questiona aspectos da abordagem governamental no enfrentamento ao crime organizado. A leitura é de que esse acúmulo de debates pode servir de plataforma para o governo, desde que consigam, de fato, avançar com a matéria no Senado.

O governo também pretendia avançar com a proposta de tarifa zero nos transportes públicos, outra pauta de grande impacto social. Dois projetos disputam a preferência no Legislativo, um apresentado pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) e outro pelo senador Rogério Carvalho (PT-SE). No entanto, o tema não avançou nas comissões temáticas, com a avaliação de parte do governo de que o tema não ganhou o apelo popular suficiente para sustentar a gestão política necessária para a aprovação, principalmente em um cenário de foco eleitoral.

Além disso, havia a intenção de regulamentar a Inteligência Artificial (IA) no país, com regulação voltada a direitos autorais e ao equilíbrio entre inovação e proteção de direitos. O relator, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), trabalha para articular acordos com diferentes setores, buscando uma proposta consolidada que possa avançar na Câmara antes do recesso legislativo. Contudo, o governo reconhece que é necessária ainda uma etapa de diálogo aprofundado para fechar pontos sensíveis e viabilizar a aprovação.

Outro tema de peso envolve a atuação econômica das “big techs”. O PL 4675/2021, em tramitação desde junho do ano passado em regime de urgência, confronta a atuação de grandes empresas de tecnologia no Brasil. O texto pretendia responsabilizar as companhias pela disseminação de desinformação, proibir publicidade de conteúdos de ódio e promover a liberdade de expressão, incluindo a criação de uma entidade de autorregulamentação com poder de suspender contas. O relatório foi apresentado pelo deputado Aliel Machado (PV-PR) e aguarda votação no plenário da Câmara, sem prazo definido para entrar em pauta. O governo, por meio do Planalto, não estabeleceu data para a conclusão dessa rodada de negociações, reconhecendo a necessidade de consenso entre diferentes agentes do setor.

Novas prioridades e propostas adicionais

Ao longo do ano, surgiram duas propostas não constadas originalmente na lista inicial que ganharam apoio do Executivo, mas enfrentam o mesmo obstáculo: a espera de deliberação no Senado. A primeira trata de regras para exploração de minerais críticos, conhecidos como terras raras. A Câmara aprovou o texto no começo de junho, porém não houve definição de relator, o que retarda o seguimento da tramitação. O governo vê o tema como estratégico, buscando acelerar a implementação de uma nova política setorial, mas depende de consenso entre as casas para avançar.

A segunda pauta envolve a regulamentação da atuação de Datacenters no Brasil, com a instituição do Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter). O tema já havia passado por uma medida provisória que perdeu validade; parte de seu conteúdo foi incorporada a um projeto aprovado pela Câmara, mas permaneceu estagnado no Senado, sem perspectivas de descolamento rápido.

Progresso real: o que já foi aprovado

Entre as oito propostas originalmente priorizadas pelo governo, duas saíram vitoriosas no Legislativo. A primeira é a medida que prevê a renovação automática da CNH para condutores cadastrados no RNPC que não tenham cometido infrações nos últimos 12 meses. A norma já estava em vigor desde dezembro de 2025, com validade experimental de 120 dias, e foi incorporada ao ordenamento jurídico em maio de 2026. O programa também facilita a primeira habilitação para condutores das categorias A e B, com a implementação de curso teórico online gratuito e a redução de carga horária mínima obrigatória para 20 horas de prática. Em linhas gerais, a intenção é ampliar a segurança viária e simplificar o processo de habilitação, contrastando com medidas anteriores adotadas no governo anterior, que haviam prolongado prazos de validade da CNH.

A segunda aprovação relevante refere-se à Lei Antifaçção, apresentada pelo governo em novembro de 2025 após uma operação policial no Rio de Janeiro que resultou em 121 mortes em outubro do mesmo ano. O texto tipifica crimes de domínio social estruturado, amplia a pena máxima de reclusão e estabelece instrumentos para monitorar e confiscar o patrimônio de facções criminosas. Durante as discussões, a proposta gerou controvérsia entre governo e oposição, especialmente no que diz respeito à classificação de facções como grupos terroristas. O relator, deputado Guilherme Derrite (PL-SP), acabou recuando e retirando essa classificação da proposta. Após cinco meses de tramitação, a Lei Antifaçção foi aprovada no plenário, fechando esse ciclo de debates no Congresso.

Em síntese, o ano de 2026 apresenta um retrato de funcionamento das engrenagens institucionais: o governo mantém a aposta em pautas com alta visibilidade política para o eleitorado, mas a maioria das propostas permanece emperrada no Congresso. A depender de fatores internos e de negociações entre Executivo, Câmara e Senado, o desfecho dessas matérias continuará a moldar o cenário político até as eleições de 2026 e o potencial desdobramento de um novo ciclo legislativo no próximo ano.

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