O embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, chegou a Brasília, no Distrito Federal, na segunda-feira (27), para sequência de encontros com o chanceler Mauro Vieira e, possivelmente, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Bitelli foi convocado para consultas com o governo brasileiro em tomada de posição diplomática após declarações proferidas pelo presidente argentino Javier Milei contra Lula e o ministro Alexandre de Moraes durante um evento de apoio ao Partido Liberal (PL) no Brasil. As informações são da jornalista Isabel Mega, da CNN Brasil.
O Itamaraty informou que Bitelli ficará à disposição de Vieira e de Lula, e não há, até o momento, uma previsão de retorno a Buenos Aires, na Argentina. A convocação do embaixador brasileiro para consultas representa um gesto de protesto formal diante das declarações proferidas por Milei, que geraram mal-estar nas relações bilionárias entre Brasil e Argentina. O tom de tensão diplomática é explicito e, neste caso, a atuação do governo brasileiro busca recontratar o alinhamento institucional entre as duas nações.
Contexto da convocação e agenda do embaixador
Leia-se que Bitelli terá a função de prestar informações ao governo brasileiro sobre a relação com a Argentina, avaliando impactos diplomáticos e diplomacia pública resultantes das falas de Milei. A convocação para consultas, adotada pelo Ministério das Relações Exteriores, surgiu após o líder argentino, ao lado do senador Flávio Bolsonaro, então candidato à Presidência pelo PL, fazer críticas duras a Lula e a Moraes, chamando Lula de “presidiário” e Moraes de “lixo careca” durante a convenção do PL em São Paulo, no sábado (25).
Essa resposta diplomática de Brasília é interpretada como um sinal de repúdio institucional às declarações ofensivas, mantendo, porém, a linha de canal aberto com a Argentina. Ao que tudo indica, Bitelli deverá apresentar informações sobre o estágio atual da relação bilateral, as áreas de cooperação econômica, comercial e institucional, além de esclarecer eventuais impactos da fala de Milei para políticas de cooperação entre os dois países. A expectativa é de que, mesmo sem data definida para o retorno, o embaixador continue disponível para atuar dentro da agenda de alto nível do governo brasileiro.
Relações bilaterais e reações oficiais
No âmbito diplomático, o Itamaraty também destacou que, no fim de semana, o embaixador da Argentina no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi, foi convocado para prestar esclarecimentos sobre os ataques de Milei. Fontes próximas ao Itamaraty destacam que o chanceler Mauro Vieira mantém uma relação de cerca de 30 anos com Raimondi, o que levou a que Vieira buscasse uma comunicação direta com o diplomata. Em situações como essa, é comum que as autoridades abracem contatos com representantes de menor escalão em primeira instância, mas a relação de confiança entre os dois chanceleres facilita o diálogo direto quando necessário.
A decisão de chamar de volta o embaixador brasileiro em Israel em 2024, em resposta a uma crise diplomática com o governo de Benjamin Netanyahu, é citada como precedente recente pela administração brasileira para ilustrar que episódios de tensão entre governos próximos costumam gerar ajustes de representação diplomática. Embora cada caso tenha seus detalhes específicos, o movimento de Brasília, neste capítulo, se insere no conjunto de medidas previstas para preservar a estabilidade de relações históricas de amizade e cooperação com países vizinhos.
Em comunicado divulgado pelo Itamaraty neste contexto, houve condenação pública aos ataques de Milei. O órgão reiterou que não há precedentes de um presidente estrangeiro, em território brasileiro, enfileirando agressões e ofensas ao chefe de Estado brasileiro, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo do Brasil. A nota oficial ressaltou ainda que é especialmente lamentável que esse episódio envolva o presidente de um país com o qual o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação, além de ser o principal parceiro comercial do Brasil. Esses elementos passam a compor a base da leitura do governo brasileiro sobre o impacto da fala de Milei na cooperação entre as duas nações e na construção de políticas de longo prazo que preservem a paz e o funcionamento estável das relações bilaterais.
Em síntese, a visita de Bitelli a Brasília, com reuniões previstas com o chanceler Mauro Vieira e, possivelmente, com o presidente Lula, sinaliza uma intenção firme do Brasil de manter o diálogo aberto e a cooperação já estabelecida com a Argentina, ao mesmo tempo em que envia um recado de que críticas de alto tom não passarão sem resposta diplomática. A evolução desse episódio vai depender das próximas etapas de comunicação entre os ministérios das Relações Exteriores dos dois países e de como as autoridades argentinas irão calibrar seus posicionamentos à luz das trocas diplomáticas em curso.


