Mulheres que tiveram um período reprodutivo mais longo e aquelas que utilizaram terapia hormonal durante a menopausa apresentaram menos sinais de danos nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro aos 70 anos. A associação foi observada por pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, em estudo publicado na quarta-feira (4/11) pela revista científica Neurology.
A pesquisa incluiu 352 mulheres nascidas em 1944. Todas passaram por exames de ressonância magnética quando completaram 70 anos, e a maior parte delas foi submetida a uma nova avaliação cinco anos depois, aos 75. Para relacionar as imagens cerebrais à trajetória hormonal das participantes, os cientistas também levantaram informações sobre a idade da primeira menstruação, o momento da menopausa e o uso anterior de contraceptivos e de terapia hormonal.
Os resultados apontaram que cada ano a mais transcorrido entre a primeira menstruação e a menopausa esteve relacionado a uma redução aproximada de 8% na probabilidade de apresentar dois ou mais sinais de alterações nos pequenos vasos do cérebro aos 70 anos. Entre os aspectos analisados, a ocorrência mais tardia da menopausa foi o fator que apresentou a associação mais forte com a menor presença desses sinais.
As mulheres que fizeram terapia hormonal durante a menopausa também mostraram menos evidências de alterações vasculares cerebrais. Nos exames, a substância branca do cérebro apareceu mais preservada entre essas participantes. Essa área é composta por fibras que conectam diferentes regiões cerebrais e permitem a comunicação entre elas.
O estudo encontrou ainda uma relação entre a terapia hormonal e uma espessura maior do córtex cerebral em áreas associadas ao Alzheimer. Esse resultado, porém, foi identificado apenas entre as participantes portadoras da variante genética APOE-ε4, que está ligada a um risco elevado de desenvolver a doença.
Exames avaliaram lesões e sangramentos no cérebro
A doença dos pequenos vasos cerebrais afeta os vasos que fornecem sangue a diferentes regiões do cérebro. Para investigar possíveis sinais da condição, os pesquisadores analisaram as imagens obtidas por ressonância magnética em busca de pequenas lesões, cavidades preenchidas por líquido e pontos de sangramento no tecido cerebral.
Para Anna Marseglia, neurobióloga do Instituto Karolinska, os resultados levantam a possibilidade de que a exposição ao estrogênio em diferentes fases da vida esteja relacionada à saúde dos vasos sanguíneos cerebrais na velhice.
“A exposição hormonal em diferentes períodos da vida de uma mulher pode ter efeitos cumulativos também na saúde dos vasos sanguíneos do cérebro na idade adulta”, afirmou a pesquisadora.
Pesquisa não confirma ação protetora dos hormônios
Apesar das associações observadas, o trabalho não comprova que os hormônios exerçam diretamente um efeito protetor sobre o cérebro. O estudo é observacional, ou seja, identificou relações entre as características das participantes e os resultados dos exames, mas não permite concluir que a exposição ao estrogênio tenha causado as diferenças encontradas. Além disso, os níveis hormonais das mulheres não foram medidos diretamente.
Os autores também afirmam que os resultados não devem ser interpretados como uma recomendação para o uso de terapia hormonal com a finalidade de prevenir demência ou Alzheimer. A investigação foi realizada com 352 mulheres de uma única cidade sueca. Por isso, são necessários novos estudos para verificar se as mesmas associações aparecem em outros grupos populacionais.
Alterações vasculares podem ser observadas no contexto do Alzheimer
O Alzheimer é uma doença degenerativa causada pela morte de células cerebrais. O processo pode começar décadas antes do aparecimento dos primeiros sintomas e tende a se intensificar ao longo do tempo. Nesse contexto, o diagnóstico precoce é considerado importante para tentar retardar a progressão da doença, enquanto a presença de sinais deve ser investigada por um especialista.
Embora os sintomas sejam mais comuns após os 70 anos, eles também podem surgir em pessoas mais jovens, inclusive por volta dos 30 anos. Quando a doença se manifesta precocemente, é classificada como Alzheimer precoce.
Na etapa inicial, são frequentes dificuldades de memória, como esquecer onde as chaves foram deixadas, o que foi consumido no café da manhã, o nome de uma pessoa ou até mesmo a estação do ano. A doença também pode provocar desorientação, dificuldade para lembrar o próprio endereço ou o caminho de casa e problemas para tomar decisões simples, como planejar uma atividade ou escolher o que comer.
A redução do interesse por tarefas rotineiras, mudanças de comportamento, aumento da irritabilidade ou da agressividade e repetição de ações ou falas estão entre os sinais associados à doença. Segundo pesquisa da fundação Alzheimer’s Drugs Discovery Foundation (ADDF), proteínas danificadas, como amiloide e tau, doenças vasculares, neuroinflamação, falhas de energia neural e fatores genéticos, entre eles o gene APOE, podem estar relacionados ao surgimento do Alzheimer.
O tratamento combina medicamentos voltados à redução dos sintomas com fisioterapia e estimulação cognitiva. A doença não tem cura, e os cuidados devem ser mantidos durante toda a vida.


