Correio Divinopolitano

Estudo identifica presença de 19 substâncias químicas em dentes de crianças com autismo

Estudo identifica presença de 19 substâncias químicas em dentes de crianças com autismo

Uma pesquisa publicada na revista Neurotoxicology and Teratology em agosto deste ano revelou a presença de 19 substâncias químicas em concentrações significativamente superiores em dentes de leite de crianças com autismo, quando comparadas às de crianças sem o diagnóstico. O estudo, que analisou dentes doados por famílias de 38 crianças — sendo 22 com autismo e 16 sem a condição —, buscou investigar a exposição a compostos químicos durante fases iniciais da vida, incluindo o período gestacional.

A análise dos dentes de leite, que começam a se formar por volta do quarto mês de gestação e continuam seu desenvolvimento até aproximadamente os três anos de idade, permite identificar a exposição acumulada a substâncias químicas nesse período, diferentemente de exames de sangue ou urina, que refletem exposições de curto prazo. Para isso, os pesquisadores limparam e prepararam as amostras, utilizando técnicas laboratoriais avançadas para detectar a presença de compostos químicos.

Em média, cada amostra continha mais de 300 substâncias químicas diferentes, embora nem todas estivessem presentes em todas as crianças. Para aprofundar a análise, os cientistas focaram em 60 compostos detectados em pelo menos metade dos participantes. Desses, 39 eram considerados tóxicos para o desenvolvimento ou reprodução, segundo critérios da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), além de serem classificados como desreguladores endócrinos, capazes de interferir na função hormonal.

Dos 60 compostos analisados, 95% apresentaram concentrações mais elevadas nos dentes de crianças com autismo. Contudo, apenas 19 dessas diferenças atingiram um nível de significância estatística, indicando que os resultados são suficientemente consistentes para serem considerados relevantes na análise científica. Entre as substâncias que se destacaram, o benzoato de benzila merece atenção, pois foi encontrado em concentrações 722% maiores nos dentes das crianças com autismo em comparação ao grupo de controle. Este composto, utilizado em produtos de higiene pessoal, aditivos alimentares e tratamentos contra piolhos e sarna, demonstra uma potencial relação com a condição, embora o estudo não estabeleça causalidade.

Além do benzoato de benzila, foram identificadas diferenças em grupos de substâncias como organofosforados, ftalatos, salicilatos e derivados do ácido benzoico. Essas substâncias têm diversas aplicações industriais e podem estar presentes em itens de uso cotidiano, reforçando a complexidade de possíveis fontes de exposição.

Os autores do estudo destacam que a presença dessas substâncias nos dentes não implica que todas as crianças tenham sido expostas às mesmas fontes ou na mesma quantidade. Ainda que as concentrações variem, o estudo não consegue determinar a origem exata dos compostos nem estabelecer uma relação de causa e efeito com o autismo. A pesquisa faz parte de um esforço maior para compreender possíveis ligações entre fatores ambientais e o desenvolvimento da condição, que envolve uma combinação de fatores genéticos e ambientais.

Lynne Heilbrun, cientista ambiental da Universidade do Texas em San Antonio e uma das autoras do estudo, explica que os dentes podem complementar outros métodos de avaliação de exposição química. Segundo ela, enquanto exames de sangue e urina refletem exposições de curto prazo, os dentes acumulam sinais de exposição ao longo de vários anos, oferecendo uma visão mais abrangente do período gestacional e dos primeiros anos de vida. Heilbrun ressalta, entretanto, que análises de ambos os tipos são essenciais para uma compreensão mais completa do impacto das substâncias químicas na saúde infantil.

Por se tratar de um estudo piloto, a pesquisa apresenta limitações relevantes, incluindo uma amostra pequena de apenas 38 crianças. Assim, os resultados precisam ser confirmados em estudos com grupos maiores e mais diversificados. Além disso, novas investigações são necessárias para determinar se as diferenças encontradas nas concentrações químicas têm alguma influência direta no desenvolvimento do autismo ou se refletem outros fatores ambientais ou genéticos.

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