Uma bactéria responsável por causar diarreia e vômitos, a Shigella, vem apresentando resistência crescente a diversos antibióticos utilizados no tratamento de infecções, especialmente naquelas transmitidas por contato sexual. Essa mudança no perfil de resistência tem dificultado o manejo clínico de casos, principalmente entre populações de homens que fazem sexo com homens, incluindo homens gays e bissexuais. Dados recentes indicam que, enquanto em 2011 nenhuma das amostras de Shigella coletadas apresentava resistência aos cinco principais antibióticos avaliados, em 2023 esse percentual subiu para 8,5%, com as cepas resistentes sendo mais frequentes na população masculina adulta que, na maioria dos casos, não havia viajado recentemente para outros países, sugerindo uma transmissão comunitária interna.
A bactéria causa a shigelose, uma infecção que pode evoluir para disenteria, caracterizada por diarreia com sangue. A transmissão ocorre principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados, mas o contato sexual tem se destacado como uma via importante de disseminação, especialmente em contextos de alta vulnerabilidade. Essa mudança no padrão de transmissão e resistência tem sido observada com destaque nos Estados Unidos, onde o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) analisou aproximadamente 17 mil amostras de Shigella entre 2011 e 2023. O estudo revelou que, enquanto há uma ausência de resistência em 2011, a resistência extensiva a múltiplos antibióticos passou a representar 8,5% das amostras em 2023, indicando uma evolução preocupante.
Além dos Estados Unidos, pesquisadores do Reino Unido também identificaram um aumento na resistência de cepas de Shigella transmitidas sexualmente. Um estudo liderado pela geneticista Kate Baker, da Universidade de Cambridge, publicado na revista The Lancet Infectious Diseases em julho de 2023, apontou que, em 2025, 86% das amostras de Shigella sonnei e 94% de Shigella flexneri – as espécies mais comuns em casos de transmissão sexual entre homens – apresentaram resistência a antibióticos. Essas variantes resistentes representam um desafio crescente, uma vez que, até recentemente, a infecção por Shigella poderia ser tratada com medicamentos disponíveis, mas agora muitas dessas opções estão se tornando ineficazes.
Pesquisas anteriores conduzidas por Baker e sua equipe indicaram que até um terço dos pacientes infectados por Shigella transmitida sexualmente precisaram de internação hospitalar, com duração média de quatro a cinco dias. A especialista destacou que essa resistência não é apenas uma questão de diarreia transmissível por via sexual, mas o surgimento de múltiplas variantes que estão rapidamente se tornando resistentes aos tratamentos tradicionais, o que aumenta o risco de complicações graves.
A origem da infecção também influencia na abordagem do tratamento. Segundo Kate Baker, indivíduos que contraíram Shigella por contato sexual podem precisar de uma estratégia terapêutica diferente daqueles que adquiriram a bactéria durante viagens ao exterior. Essa diferenciação reforça a importância de um diagnóstico preciso e de uma avaliação detalhada do histórico do paciente para orientar a escolha do tratamento mais adequado.
Diante desse cenário, a resistência crescente da Shigella representa um desafio significativo para a saúde pública, demandando atenção especial na vigilância epidemiológica, na conscientização de populações vulneráveis e na necessidade de desenvolvimento de novas opções terapêuticas para o manejo dessas infecções.


