Correio Divinopolitano

Hospital realiza primeiro transplante de quadril com enxerto ósseo estrutural no Distrito Federal

Hospital realiza primeiro transplante de quadril com enxerto ósseo estrutural no Distrito Federal

Celina Araújo Xavier, 74 anos, tornou-se a primeira moradora do Distrito Federal a receber um transplante de quadril com enxerto ósseo estrutural, procedimento que ocorreu no dia 30 de junho, no Hospital Rome. A cirurgia, de alta complexidade, durou oito horas e exigiu a reconstrução quase completa da região da bacia da paciente, diante de uma fratura inicialmente não diagnosticada que, com o tempo, se tornou mais evidente e invasiva.

Em fevereiro deste ano, Celina sofreu uma queda considerada pequena na época, mas a partir de então passou a experimentar dores fortes na região pélvica. Mesmo assim, manteve parte de suas atividades diárias com o auxílio de um andador. Os sinais não passaram, e em março a paciente conseguiu atendimento especializado em quadril, que revelou uma fratura no acetábulo — a cavidade articular da pelve — e o rompimento de uma prótese que já havia sido implantada há oito anos. A gravidade do quadro levou o médico ortopedista Abner Alberti, da clínica MEO – Medicina Esportiva e Ortopedia, a inicialmente cogitar uma cirurgia de emergência, mas, após avaliação detalhada, optou pela reconstrução com enxerto ósseo estrutural.

O processo de busca por um doador teve apoio importante do Banco de Tecidos do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro, que forneceu o enxerto necessário. O material passa por um rígido protocolo de preparação a fim de reduzir riscos de rejeição: o tecido orgânico é removido, é descontaminado e submetido a testes para vírus, bactérias e fungos, permanecendo em quarentena e armazenado a cerca de -80 graus Celsius até o momento da cirurgia. O ortopedista Alberti ressalta que esse cuidado extremo busca assegurar a segurança do procedimento.

Antes do ato operatório, a equipe médica realizou tomografia computadorizada e utilizou impressão 3D para criar um modelo tridimensional da pelve, permitindo simular a operação com antecedência. Essa simulação ajuda a definir com maior precisão os cortes necessários e a colocação de parafusos, reduzindo riscos e o tempo de cirurgia. Na prática, a artroplastia de quadril tradicional envolve a inserção de uma prótese na cavidade acetabular da bacia; porém, como Celina perdeu quase todo o osso da bacia e não possuía mais acetábulo, a solução escolhida foi o transplante com enxerto para possibilitar a reconstrução do quadril.

O procedimento foi conduzido pela equipe integrada pelo médico Diogo Souto, pelos especialistas Anderson Freitas e Eduardo Duarte e pela equipe do Into. O hospital destacou que o caso representa um avanço significativo para a ortopedia no Distrito Federal, abrindo caminho para novas possibilidades de tratamento para lesões complexas da pelve e quadril.

Os próximos passos envolvem o monitoramento da integração do enxerto ao osso doente nos meses seguintes. Aproximadamente em três meses, Celina deverá conseguir os primeiros passos com reabilitação, incluindo exercícios com esteira antigravitacional e o uso de equipamentos de alta tecnologia de reabilitação. A equipe médica afirma que a paciente já apresenta melhoria substancial na dor; segundo Celina, a dor não persiste mais, e ela exprimiu a esperança de retomar a vida normal assim que o enxerto se integre por completo.

Para a medicina local, este caso é visto como um marco que demonstra a capacidade de conduzir procedimentos complexos com elevada exigência técnica, utilizando bancos de tecidos e planejamento virtual avançado para favorecer desfechos funcionais. A história de Celina ressalta a importância do diagnóstico precoce de fraturas complexas e da colaboração entre serviços de traumatologia, ortopedia esportiva e bancos de tecidos para oferecer opções de reconstrução que antes poderiam não estar disponíveis no próprio território do Distrito Federal.

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