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Governo Lula avalia impacto de declaração do Escudo das Américas que classifica facções brasileiras como organizações narcoterroristas

Governo Lula avalia impacto de declaração do Escudo das Américas que classifica facções brasileiras como organizações narcoterroristas

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) analisa as implicações da declaração conjunta assinada nesta terça-feira, dia 22 de setembro, pelos países membros do Escudo das Américas, que classificou as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações narcoterroristas. A medida, adotada durante uma reunião à margem da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, é vista pelo Palácio do Planalto como um movimento que reforça a estratégia dos Estados Unidos de ampliar sua influência na região, especialmente no que tange à segurança e ao controle de recursos estratégicos.

Segundo fontes do governo brasileiro, a avaliação é de que essa declaração representa uma ação de longo prazo com potencial de ampliar seu alcance para outros setores considerados estratégicos pelos EUA. Entre esses setores estão o controle de minerais críticos e terras raras na América Latina, além da proteção de territórios de investimentos russos e, principalmente, chineses. Para o Planalto, a iniciativa pode criar precedentes que incentivem os demais 14 países integrantes do Escudo das Américas — Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago — a aderir a ações semelhantes em outras áreas de interesse dos Estados Unidos.

A postura do Brasil, que não participa formalmente do grupo, é de cautela. O governo Lula acredita que a ação conjunta contra o narcotráfico pode abrir espaço para que os países latino-americanos e caribenhos, preocupados com possíveis retaliações americanas por meio de tarifas ou outras medidas econômicas, se alinhem às iniciativas dos EUA em temas além do combate às drogas. Essa percepção é reforçada por declarações de auxiliares do governo, que afirmam que o movimento fortalece a lógica de dominação regional baseada na Doutrina Monroe, especialmente após a designação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos em maio deste ano.

A declaração do Escudo das Américas, aprovada por unanimidade pelos países participantes, lista 24 organizações, independentemente de seus nomes em cada país, e prevê uma série de medidas punitivas, como o congelamento de bens, restrições de imigração e vistos, além de responsabilização criminal de indivíduos que apoiem materialmente essas organizações. O documento também manifesta a intenção de atuar de forma coordenada, incluindo a solicitação de uma reunião de consulta na Organização dos Estados Americanos (OEA), com o objetivo de estabelecer um órgão de consulta sob o Tratado do Rio (TIAR). Essa iniciativa visa facilitar ações conjuntas contra os grupos considerados narcoterroristas, embora o Brasil ainda esteja avaliando se apoiará uma eventual resolução nesse sentido.

O governo Lula também destacou que, apesar do impacto potencial dessas ações, não foi surpreendido pelo movimento internacional, uma vez que já havia sinais de uma possível postura dos EUA, como o documento divulgado pela Casa Branca em 16 de setembro, que criticava o Brasil por supostas falhas no combate ao PCC e ao CV, além das ações dos Estados Unidos contra a Nicarágua após o país impedir a participação de opositores nas eleições.

Em seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU, na mesma terça-feira, o presidente Lula reforçou a importância da cooperação internacional no combate ao crime organizado, mas também ressaltou a necessidade de respeitar a soberania dos países, rejeitando qualquer tentativa de transferência de controle de fronteiras ou de instalações militares brasileiras para outras nações. A estratégia dos Estados Unidos de ampliar sua influência na região, por meio de ações multilaterais e de cooperação, permanece como um fator de atenção para a política externa brasileira, que busca equilibrar interesses de segurança com a preservação da autonomia nacional.

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