Um medicamento amplamente utilizado para o tratamento de epilepsia mostrou potencial para frear o crescimento de um tipo de tumor cerebral infantil altamente agressivo e de difícil tratamento. O levetiracetam, conhecido por sua ação no controle de convulsões, foi associado, em estudo publicado nesta quinta-feira (17 de setembro) na revista Nature Medicine, à redução do desenvolvimento de gliomas difusos da linha média, tumores que afetam regiões do cérebro e da medula espinhal.
Esses tumores representam uma das formas mais desafiadoras de câncer cerebral, especialmente em crianças, sendo responsáveis por uma incidência anual de cerca de 300 a 400 casos nos Estados Unidos. A taxa de sobrevivência em cinco anos para esses pacientes é extremamente baixa, aproximadamente 1%, o que reforça a necessidade de novas abordagens terapêuticas.
O estudo revelou que o levetiracetam atua interferindo na comunicação elétrica entre as células tumorais e os neurônios saudáveis. Essa conexão, estabelecida por meio de sinapses, é utilizada pelo câncer para sustentar seu crescimento. Ao bloquear essa sinalização, o medicamento desacelera a multiplicação das células malignas. Dados de prontuários de 218 pacientes pediátricos também indicaram que crianças que receberam o medicamento apresentaram maior expectativa de vida em comparação às que não fizeram uso da substância.
Os pesquisadores explicam que os gliomas difusos da linha média utilizam sinais elétricos das células nervosas para promover seu crescimento, recebendo esses sinais por meio de sinapses. O levetiracetam, portanto, reduz essa transmissão de impulsos elétricos, impedindo que o tumor utilize esses sinais para se desenvolver. Experimentos realizados com camundongos reforçaram esses achados, pois os animais tratados apresentaram crescimento tumoral menor do que os não tratados. Contudo, o efeito do medicamento não foi observado em outros tipos de tumores cerebrais, que não apresentam a mesma conexão elétrica com os neurônios.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer é uma das principais causas de mortalidade global, sendo uma das quatro principais causas de óbitos antes dos 70 anos em diversos países. A detecção precoce é fundamental para aumentar as chances de cura, uma vez que alguns sinais do corpo podem indicar a presença da doença. Entre os sintomas que merecem atenção estão perda de peso inexplicada, alterações na textura da pele, inchaços ou caroços em regiões como seios, pescoço, virilha, testículos, axilas e estômago, além de tosse persistente, alterações em pintas, sangue nas fezes ou urina, dores frequentes e dificuldade ao engolir.
O estudo também destacou que o efeito do levetiracetam varia conforme o tipo de tumor. Em gliomas de outras áreas do cérebro, o medicamento não apresentou impacto na evolução da doença, provavelmente devido à ausência da conexão elétrica entre as células tumorais e os neurônios. Além disso, os cientistas ressaltam que o mecanismo de ação do levetiracetam nas células tumorais difere do seu efeito anticonvulsivante em neurônios saudáveis, sendo essa uma área de investigação em andamento.
Os pesquisadores planejam iniciar ensaios clínicos específicos para avaliar a eficácia do levetiracetam nesses tumores, com o objetivo de determinar sua potencial aplicação terapêutica em pacientes pediátricos. Apesar dos resultados promissores, o uso do medicamento não é considerado uma solução isolada, devendo fazer parte de estratégias combinadas, incluindo terapias com células modificadas para atacar o câncer. O estudo também reforça a possibilidade de reaproveitamento de medicamentos já disponíveis, que possuem perfil de segurança conhecido e capacidade de atingir o cérebro, ampliando as opções de tratamento contra tumores cerebrais.


