O Palácio do Planalto já se organizava internamente para responder a eventuais ataques do presidente da Argentina, Javier Milei, após a sua passagem pelo Brasil para a convenção nacional do Partido Liberal (PL). O encontro, realizado no fim de semana, teve como ponto alto a confirmação da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, fato que intensificou a atenção do governo brasileiro em relação aos desdobramentos diplomáticos decorrentes das declarações de Milei.
Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, Milei chegou ao Brasil na sexta-feira (24/7) e permaneceu no território nacional até o encerramento das atividades de sábado (25/7). Durante a estadia, não houve pedido de agenda com autoridades do governo federal. Ainda assim, a visita foi comunicada com o objetivo de resguardar a segurança do presidente argentino, dada a natureza pública de sua participação na convenção do PL e o impacto de suas falas sobre o cenário político regional.
Ao que tudo indica, a avaliação interna do Planalto é de que não haveria, naquele momento, qualquer posicionamento oficial sobre a própria visita, excetuando-se a disposição de reagir caso Milei proferisse ataques contra instituições brasileiras, urnas ou o processo eleitoral nacional. Um interlocutor do presidente Lula, em condição de reservado, afirmou: “Se houver algum ataque, seja às instituições brasileiras, às urnas ou ao processo eleitoral no Brasil, haverá resposta.”
Discurso de Milei na convenção e repercussões diplomáticas
Durante a convenção nacional do PL, Milei integrou a lista de oradores e, em sua fala, dirigiu críticas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a quem chamou de “lixo careca”. Conforme o argentino, Moraes não teria autorizado a visita de Milei a um “amigo injustamente preso”, em alusão à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ao citar que Lula recebia líderes estrangeiros com frequência durante o período em que esteve detido, mencionando ainda Alberto Fernández, ex-presidente da Argentina.
As declarações de Milei provocaram a convocação do embaixador da Argentina em Brasília, Daniel Raimondi, para apresentar ao governo brasileiro a repulsa formal às ofensas proferidas. Raimondi manteve contatos com o chanceler Mauro Vieira no Palácio Itamaraty ainda no domingo, horas após as falas do presidente argentino. O episódio evidenciou a repercussão diplomática imediata da visita de Milei e do tom de suas declarações.
Na sequência, o Itamaraty também tomou providências diplomáticas próprias: por meio de nota, o Ministério das Relações Exteriores convocou de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para prestar consultas ao Itamaraty. Bitelli chegou ao Brasil na manhã desta segunda-feira (27/7). Embora a convocação de um embaixador pela própria pasta brasileira seja uma medida de maior gravidade do que a convocação de um embaixador estrangeiro que se encontra no país, o gesto tende a aumentar a tensão entre Brasil e Argentina no breve prazo.
Em um pronunciamento do Itamaraty, o órgão explicitou a gravidade da situação: “Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro. É especialmente lamentável que esse episódio infamante envolva o presidente de um país com que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial.” O texto ressalta o peso histórico da relação entre os dois países, bem como a relevância econômica de uma parceria que, ao longo de décadas, é vista como a espinha dorsal do comércio entre Brasil e Argentina.
Com a sequência de movimentos diplomáticos, o governo brasileiro busca demonstrar firmeza diante de declarações consideradas ofensivas, ao mesmo tempo em que busca manter a linha de conduta que favoreça a cooperação regional. A situação, observam analistas, tende a manter um claro eixo de tensão entre Brasília e Buenos Aires enquanto Milei permanece ativo politicamente e seu governo mantém uma posição anti-sistêmica que, no Brasil, é interpretada como um desafio direto às instituições democráticas e ao processo eleitoral.
Em síntese, o episódio evidencia como a visita de Milei ao Brasil, associada a críticas contundentes a autoridades brasileiras, pode ter desdobramentos relevantes para as relações entre os dois países. A resposta do Itamaraty e a mobilização de diplomatas — entre deslocamentos de embaixadores e consultas formais — sinalizam que o governo brasileiro pretende manter a reação em um patamar institucional, sem rebaixar o tema a retórica pública, preservando, ao mesmo tempo, a cooperação bilateral que tem sustentado uma relação estratégica por décadas.


