O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reuniu-se nesta segunda-feira (27) com o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para comunicar a repulsa do governo brasileiro às declarações proferidas pelo presidente argentino, Javier Milei, durante a convenção nacional do Partido Liberal (PL) realizada no fim de semana em São Paulo. A audiência teve caráter de protesto formal, após Milei ter participado do evento que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.
Durante a convenção, Milei dirigiu críticas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, chamando-o de “lixo careca”, e renovou ataques ao presidente Lula. Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores divulgou nota no domingo (26) ressaltando que não há precedentes de um chefe de Estado estrangeiro realizar ataques a um presidente da República, às instituições democráticas, ao Poder Judiciário e ao povo brasileiro em território brasileiro. O Itamaraty informou que Raimondi foi convocado para ouvir o protesto formal do governo brasileiro, deixando claro que a postura do presidente argentino viola a cordialidade necessária nas relações bilaterais.
A reunião entre Mauro Vieira e Daniel Raimondi ocorreu num momento de tensão diplomática entre os dois países, que também tem desdobramentos institucionais. No mesmo período, o Brasil determinou o retorno do embaixador brasileiro na Argentina, Júlio Bitelli, a Brasília para consultas. A expectativa é de que Bitelli se reúna com o chanceler Mauro Vieira a partir de quarta-feira (29), para alinhar as próximas etapas da crise diplomática e das relações bilaterais.
No âmbito diplomático, a convocação de um embaixador é entendida como uma das formas mais severas de manifestação de descontentamento entre nações. Em geral, esse gesto sinaliza ressalvas graves, sem que haja ruptura formal das relações. A medida, contudo, deixa claro que o Brasil não tolera ataques a suas instituições ou a seus representantes em território nacional, mesmo em meio a disputas políticas.
As repercussões do episódio também alcançaram a Argentina. O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, classificou as declarações de Milei como uma fonte de “vergonha” e afirmou ter informado a Mauro Vieira que o presidente argentino “não representa o sentir do povo argentino”. A fala do governador reforça a leitura interna de que o tom utilizado por Milei diverge do sentimento de parte relevante da população da região, ampliando o atrito com o governo brasileiro e com a oposição a Milei no país vizinho.
O episódio ocorre em meio ao acirramento de tensões entre Brasil e Argentina desde a posse de Milei, com a convenção do PL em São Paulo servindo de palco para críticas explícitas ao governo brasileiro. O Itamaraty reiterou, entretanto, que o retorno do embaixador Bitelli a Brasília visa escoar a situação de modo institucional, mantendo a linha de diálogo para evitar o rompimento das relações bilaterais. A expectativa é de que, nas próximas horas, reuniões entre as equipes técnicas e políticas dos dois países avancem para reduzir a temperatura do embate e buscar caminhos para recuperação do nível de cooperação que historicamente uniu Brasil e Argentina.


