Uma série de temporais severos atingiu municípios do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul nos primeiros dias de novembro. A combinação de tornados, ventos acima de 100 km/h, chuva volumosa, granizo e alagamentos causou mortes, deixou pessoas feridas, danificou milhares de imóveis e comprometeu serviços públicos em diferentes cidades da Região Sul.
Os episódios integram um período de instabilidade que também alcançou outras áreas do Centro-Sul brasileiro. Embora tempestades intensas não sejam fenômenos incomuns, especialistas apontam que a presença do El Niño e os efeitos das mudanças climáticas podem ampliar a intensidade dos eventos e os prejuízos associados a eles.
Nos últimos anos, ocorrências de tempestades severas e tornados no Sul, assim como períodos de seca intensa em determinadas épocas no Norte, passaram a chamar mais atenção pela recorrência. Ainda assim, a avaliação precisa ser feita caso a caso. Nem todo episódio de ventos destrutivos pode ser definido como tornado, e a confirmação depende de análises meteorológicas específicas.
Bacia do Prata reúne fatores que favorecem temporais intensos
O meteorologista Marcelo Enrique Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explica que a Bacia do Prata está entre as áreas do planeta mais propensas à formação de tempestades violentas. A região inclui trechos do Brasil, do Paraguai, da Argentina e do Uruguai.
A localização geográfica contribui para o encontro de diferentes sistemas atmosféricos. A Cordilheira dos Andes influencia o deslocamento das frentes frias e ajuda a canalizar para o Sul do continente a umidade proveniente da Amazônia. Esse transporte de vapor d’água ocorre pelo jato de baixos níveis, mecanismo conhecido popularmente como “rios voadores”.
Quando o ar quente e úmido vindo das áreas ao norte se choca com uma frente fria que avança a partir do Sul, a atmosfera passa a reunir condições para tempestades com precipitação intensa, granizo, descargas elétricas e rajadas fortes. Segundo Seluchi, a combinação entre a umidade transportada do Norte e o sistema frontal que chega do Sul cria um ambiente especialmente favorável à ocorrência desses fenômenos.
Esse tipo de encontro entre massas de ar é mais comum na primavera e no outono. Durante a primavera, além da umidade e da passagem de frentes frias, o ar mais frio nas camadas superiores da atmosfera favorece a formação de granizo, um dos elementos presentes nos temporais recentes.
As características das demais estações são diferentes. No inverno, a quantidade de frentes frias aumenta, mas o transporte de umidade da Amazônia tende a ser menor. No verão, o calor e a umidade são mais elevados, porém a atuação de frentes frias diminui. Por isso, primavera e outono apresentam uma combinação particularmente propícia para tempestades severas.
El Niño altera a circulação atmosférica e favorece mais chuva no Sul
O El Niño é outro fator que pode contribuir para o aumento das chuvas na Região Sul. Mesmo sendo um fenômeno associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico, seus efeitos se estendem à circulação atmosférica e influenciam o comportamento dos sistemas meteorológicos sobre a América do Sul.
Em períodos de El Niño, os jatos de altos níveis — correntes de vento que interferem na movimentação das frentes e de outros sistemas — podem se tornar mais intensos e permanecer por mais tempo sobre o Sul do Brasil e a Bacia do Prata.
Como consequência, as frentes frias podem atravessar a região com maior frequência. Esse processo eleva o volume de chuva e aumenta a quantidade de umidade presente no solo e na atmosfera. Seluchi descreve a situação como um ciclo em que a chuva mantém a umidade elevada, enquanto a própria umidade oferece combustível para novas precipitações.
Atmosfera mais quente pode concentrar maior quantidade de vapor
O aquecimento global também interfere no potencial de intensidade das chuvas. Com a elevação da temperatura média, a atmosfera consegue armazenar mais vapor d’água. Quando um sistema meteorológico provoca precipitação, essa maior disponibilidade de umidade pode resultar em volumes mais expressivos em um intervalo curto.
O efeito tende a ser relevante em países tropicais, como o Brasil, onde o aumento da temperatura amplia ainda mais a capacidade atmosférica de retenção de vapor. Para o meteorologista, sistemas que já produzem chuva passam a ter maior potencial para gerar precipitações intensas em um cenário de aquecimento global.
Seluchi também relaciona o aquecimento dos oceanos à possibilidade de ocorrência mais frequente de episódios de El Niño. De acordo com o especialista, o Oceano Pacífico apresentou aumento de temperatura nas últimas décadas, condição que pode influenciar tanto a frequência quanto a intensidade do fenômeno.
Identificação de tornados depende de investigação específica
Apesar da sequência de eventos registrados recentemente, ainda não é possível afirmar, apenas com base nos dados históricos, que tornados e tempestades severas estejam ocorrendo com maior frequência. A classificação de cada fenômeno exige uma análise detalhada das condições atmosféricas e dos danos observados.
Microexplosões atmosféricas, linhas de instabilidade e supercélulas também podem produzir ventos destrutivos e prejuízos semelhantes aos provocados por tornados. No entanto, tratam-se de sistemas diferentes, com características próprias. Por esse motivo, ventos extremos não devem ser automaticamente classificados como tornados.
O meteorologista citou dúvidas envolvendo a identificação de alguns episódios recentes e reforçou a necessidade de avaliações individuais. Ainda assim, ele considera possível que as mudanças climáticas estejam tornando a Bacia do Prata mais vulnerável a tempestades violentas. A maior presença de umidade na atmosfera e as alterações associadas ao El Niño podem favorecer eventos mais intensos.
Na avaliação de Seluchi, caso as mudanças climáticas estejam alterando os padrões estatísticos da região, a tendência mais provável seria de aumento, e não de redução, na intensidade e na frequência das tempestades.


