O médico e especialista em envelhecimento Alexandre Kalache defendeu, em Brasília, a adoção de políticas públicas integradas para enfrentar o envelhecimento precoce da população brasileira. Segundo ele, os brasileiros começam a apresentar perda funcional, em média, dez anos antes dos europeus, resultado de fatores como desigualdade social, acesso insuficiente aos serviços de saúde, alimentação inadequada e baixos níveis de atividade física.
A avaliação é reforçada por um estudo internacional publicado em agosto na revista Plos One. De acordo com a pesquisa, o declínio da capacidade de realizar tarefas cotidianas começa no Brasil por volta dos 70 anos. Entre os europeus, esse processo ocorre, em média, aos 80 anos.
Para Kalache, as condições acumuladas ao longo da vida ajudam a explicar essa diferença. O especialista relaciona o envelhecimento precoce e o aumento de doenças crônicas à combinação entre hábitos individuais, situação econômica e possibilidade de acesso a cuidados médicos. Obesidade, diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares estão entre os problemas que podem comprometer a saúde antes da velhice.
O médico esteve na capital federal nesta sexta-feira (6/11), quando participou do lançamento do livro A revolução da longevidade. Durante o evento, ele afirmou que o país precisa formular políticas intersetoriais voltadas à preservação da autonomia e da independência das pessoas idosas. Também defendeu medidas para apoiar as famílias responsáveis pelos cuidados e a preparação de profissionais de saúde para atender às demandas associadas ao envelhecimento.
Kalache afirmou que a pandemia de Covid-19 tornou mais visíveis os efeitos das condições de saúde desenvolvidas ao longo da vida. Muitas pessoas com menos de 60 anos morreram após contrair a doença porque já conviviam com diabetes, hipertensão, obesidade ou enfermidades cardiovasculares. Na avaliação do especialista, parte dessas mortes precoces também esteve ligada à falta de políticas públicas capazes de reduzir os fatores de risco antes do agravamento dos problemas.
Modelo familiar de cuidado perdeu capacidade de resposta
As transformações demográficas e sociais, segundo Kalache, exigem uma mudança na organização do cuidado com a população idosa. No passado, era mais comum que as famílias contassem com mulheres disponíveis para acompanhar parentes mais velhos. Muitas ainda não trabalhavam fora de casa e, em algumas situações, uma das filhas permanecia solteira para assumir a responsabilidade pelos pais.
Esse arranjo, porém, já não consegue responder sozinho ao aumento da longevidade. “As famílias não vão dar conta”, afirmou o médico. Para ele, a chamada revolução da longevidade impõe duas prioridades: criar uma rede de apoio para os familiares que cuidam de pessoas idosas e formar profissionais de saúde preparados para lidar com as características dessa etapa da vida.
O especialista observa que o perfil dos desafios médicos também mudou. Embora muitas doenças crônicas não tenham cura, elas podem ser prevenidas ou controladas. Os riscos de diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares se acumulam com o tempo e são influenciados pelos hábitos, pelas condições econômicas e pelo acesso a consultas, exames e tratamentos.
A idade, portanto, não determina sozinha a condição de saúde de uma pessoa. Um indivíduo de 90 anos que teve alimentação equilibrada, praticou atividade física, realizou acompanhamento médico e teve acesso regular a exames pode apresentar uma situação muito diferente daquela de alguém que viveu com baixa escolaridade, renda limitada e histórico de empregos precários.
Kalache cita como exemplo as diferenças entre moradores de áreas de alta renda, como Jardim Paulista, em São Paulo, e Alto Leblon, no Rio de Janeiro, e brasileiros que não tiveram acesso a alimentação saudável, prevenção, condições adequadas de trabalho ou moradia. Na visão do médico, essas desigualdades produzem formas distintas de envelhecer dentro do mesmo país.
Especialista sugere Ministério da Longevidade
O médico considera que o envelhecimento deve ser tratado como uma responsabilidade do Estado, conforme estabelece o Estatuto do Idoso. Ele defende uma política baseada na cultura do cuidado e direcionada a toda a população, não apenas aos cidadãos com mais de 60 anos. A justificativa é que os fatores que determinam a saúde na velhice começam a se acumular desde as primeiras fases da vida.
No início do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Kalache e o chefe do Executivo chegaram a conversar sobre o tema. Ao comentar a possibilidade de criação de uma pasta voltada aos idosos em um eventual quarto mandato de Lula, o especialista sugeriu o nome Ministério da Longevidade.
Para Kalache, a denominação seria mais ampla e evitaria limitar o debate às pessoas com 60 anos ou mais. A estrutura, segundo ele, precisaria contar com orçamento próprio e autoridade para coordenar ações com os ministérios da Educação, do Trabalho, da Cultura, da Previdência e da Seguridade Social.
Sem essa articulação, avaliou o médico, uma nova pasta não teria condições de elaborar políticas efetivas para o envelhecimento. Ele também ponderou que a expressão “Ministério dos Idosos” poderia alcançar menos pessoas, especialmente porque muitos brasileiros, sobretudo homens, não se identificam com a condição de idosos. Kalache relaciona essa resistência ao idadismo, preconceito baseado na idade.
O especialista ainda mencionou a participação de eleitores com 60 e 80 anos ou mais nas eleições e recordou seu papel na campanha “Vote 70”. Segundo ele, imagens de homens e mulheres frágeis, alguns em cadeiras de rodas ou carregados por netos, votando e celebrando a possibilidade de deixar um legado, sensibilizaram o presidente Lula.
Serviço
Livro: A revolução da longevidade, de Alexandre Kalache
Data: 10/11
Horário: 19h
Local: Livraria Circulares
SHCGN CRN 714/715
Asa Norte, Brasília (DF)
Frequência de envio: semanal.


