O governo dos Estados Unidos anunciou nesta segunda-feira, 31 de outubro, a celebração de um acordo que permitirá a uma empresa privada vinculada ao Departamento de Defesa dos EUA explorar 17 campos de petróleo na Venezuela, o que representa aproximadamente 21% das reservas comprovadas do país. O entendimento, que terá validade de um século, envolve a participação da North American Blue Energy Partners (Nabep), uma companhia que possui 35% de suas ações sob controle do Escritório de Capital Estratégico do Departamento de Guerra norte-americano.
Segundo informações oficiais da Casa Branca, o contrato autoriza a Nabep a conceder ao governo dos Estados Unidos o direito de adquirir, pelo custo de produção, 20% do petróleo produzido atualmente e futuramente nos campos sob sua operação. Além disso, o governo americano terá prioridade na compra dos 80% restantes da produção, garantindo uma influência significativa na gestão e no abastecimento de petróleo proveniente dessas áreas.
O acordo também concede ao Departamento de Estado dos EUA o poder de vetar a nomeação de membros do conselho de administração da empresa. A maioria dos integrantes do conselho deverá ser composta por cidadãos americanos, e toda a relação será regida pela legislação dos Estados Unidos, estando sujeita à jurisdição dos tribunais norte-americanos.
A operação envolve reservas estimadas em 65 bilhões de barris de petróleo, que correspondem a cerca de 21% do total de reservas comprovadas da Venezuela, avaliadas em aproximadamente 303 bilhões de barris. Os 17 campos, considerados estratégicos, representam uma fatia significativa do potencial petrolífero venezuelano e foram alvo de negociações que visam ampliar o controle dos Estados Unidos sobre os recursos energéticos do país sul-americano.
A assinatura do acordo ocorreu durante uma cerimônia com a participação dos secretários de Defesa e do Departamento de Estado dos EUA, Pete Hegseth e Marco Rubio, respectivamente. A Casa Branca destacou que o entendimento oferece aos Estados Unidos direitos de governança, propriedade econômica e garantias de fornecimento de petróleo a custos reduzidos, além de potencialmente gerar uma receita de US$ 209 bilhões em impostos ao longo de 25 anos.
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, declarou que o país optou por uma abordagem diplomática na relação com os Estados Unidos. Ela afirmou que a parceria possibilitará investimentos na ordem de US$ 100 bilhões na recuperação da infraestrutura energética venezuelana, além de reforçar a arrecadação tributária do país. A expectativa do governo venezuelano é de um aumento na produção de petróleo de 1,5 milhão de barris por dia, considerando que, em julho, a produção atingiu 1,1 milhão de barris diários, conforme dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
No entanto, o acordo foi alvo de críticas por parte de especialistas e grupos ligados ao chavismo, que questionaram seu caráter “neocolonial”. A pesquisadora Thaís Batista, do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), avaliou que a relação entre Venezuela e Estados Unidos pode ser interpretada dessa forma, sobretudo diante das mudanças promovidas na política energética do país por influência estrangeira.
Já o especialista em petróleo Francisco Rodríguez questionou a duração do contrato, uma vez que a legislação venezuelana prevê que a exploração de campos seja feita por meio de processos de licitação competitiva. Ele destacou que concessões de 100 anos são duas vezes mais longas do que as maiores já concedidas pelo país desde o início da exploração petrolífera, levantando dúvidas sobre a compatibilidade do acordo com as normas locais.
Por sua parte, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) defendeu o entendimento como uma estratégia para reativar a economia do país. A empresa Nabep, sediada em Barbados, possui três filiais na Venezuela, localizadas em Caracas, Maracaibo e Lechería, e é liderada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt. Segundo a companhia, após investimentos de cerca de US$ 1 bilhão, a produção de petróleo na Venezuela aumentou de 18 mil para 200 mil barris por dia, tornando-se a segunda maior produtora do país em apenas dois anos.


