Correio Divinopolitano

Excesso de preocupação durante período eleitoral pode prejudicar a saúde mental da população

Excesso de preocupação durante período eleitoral pode prejudicar a saúde mental da população

Durante o período eleitoral, o calendário político costuma ser avaliado por datas específicas, como o início do horário gratuito na televisão, as convenções partidárias, a divulgação de pesquisas de intenção de voto e, finalmente, o dia do pleito. No entanto, para uma parcela crescente da população, o ritmo do processo democrático é marcado por um fator silencioso e emocionalmente desgastante: a oscilação constante nos níveis de estresse e ansiedade relacionados ao cenário político.

A exposição contínua a discursos inflamados, combinada com a incerteza acerca do futuro socioeconômico do país e o fluxo incessante de notificações em redes sociais e aplicativos de mensagens, transformou o ambiente político em um catalisador direto para quadros de ansiedade e esgotamento psicológico. Essa relação entre o ambiente de disputas públicas e o adoecimento mental vem sendo cada vez mais confirmada por estudos científicos nas áreas de psicologia política e comportamento social. Pesquisas indicam que a exposição prolongada a cenários percebidos como ameaçadores ou incontroláveis atua como um estressor contínuo, levando a uma resposta fisiológica que inclui a liberação excessiva de cortisol e adrenalina.

Essas reações químicas no organismo podem gerar sintomas como insônia, fadiga intensa e dificuldades na concentração, além de prejuízos na capacidade de tomada de decisão. Em contextos de polarização política, a discussão deixa de ser apenas uma questão de debate e passa a ocupar pensamentos obsessivos, influenciando a rotina diária do cidadão.

Segundo a psicóloga Flávia Marsola, do Hospital Brasília Águas Claras, uma preocupação moderada com o destino do país é compreensível diante da importância das decisões em jogo durante o período eleitoral. O problema surge quando essa apreensão ultrapassa o limite do funcional, tornando-se prejudicial à saúde mental. Ela explica que, clinicamente, o que importa não é apenas a presença de ansiedade, mas a sua intensidade, frequência, duração e impacto na vida do indivíduo.

“Clinicamente, olhamos principalmente para intensidade, frequência, duração e prejuízo funcional. A pergunta não é apenas ‘essa pessoa está ansiosa?’, mas ‘quanto essa ansiedade está interferindo no sono, no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos e na capacidade de realizar as atividades cotidianas?’”, detalha a especialista.

A ansiedade, segundo Flávia Marsola, tem uma função natural de nos preparar para agir diante de ameaças. Contudo, ela se torna um transtorno quando aprisiona o indivíduo em uma tentativa incessante e infrutífera de prever ou controlar variáveis imprevisíveis. Essa sensação de vulnerabilidade e de urgência, muitas vezes, é alimentada pelo próprio cenário do debate político atual.

De acordo com Fábio Gentile, sociólogo e professor de Sociologia na Universidade Federal do Ceará (UFC), o clima de hostilidade e a crise na mediação democrática refletem uma crise mais profunda na relação de confiança na política. Ele destaca que as sociedades de massa tendem a ser marcadas pela incerteza e pelo medo, fenômenos que se intensificam com a ascensão de lideranças populistas, que utilizam estratégias emocionais e soluções rápidas para problemas complexos.

Gentile também aponta que a proliferação de fake news e a desinformação, muitas vezes deliberadas, alimentam a incerteza de um lado e oferecem respostas fáceis de outro, contribuindo para o aumento da polarização. Além disso, o sociólogo alerta que o hiperpartidarismo e a ausência de análise crítica minam a confiança nas instituições democráticas e dificultam o engajamento político de novas gerações.

No contexto digital, os algoritmos e a comunicação online funcionam como amplificadores da hipervigilância, dificultando a distinção entre informações confiáveis e ruído, além de potencializar o estado de alerta constante. Para evitar que esse excesso de estímulos prejudique a saúde mental, especialistas recomendam estratégias de autorregulação, como a prática de “higiene informacional”, estabelecendo horários fixos para consultar notícias de fontes verificadas, e limites claros nas interações sociais.

A psicóloga Flávia Marsola reforça que saber quando interromper discussões improdutivas, seja em ambientes familiares ou profissionais, não é um sinal de omissão, mas uma medida de preservação do vínculo e do bem-estar psicológico. Em tempos de eleições e redes sociais intensamente ativadas, o desafio não é eliminar o debate democrático, mas aprender a conviver com ele de modo a proteger a saúde mental sem abrir mão do exercício da cidadania.

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