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Cenipa conclui que avião da Voepass não deveria ter decolado e critica cultura de desvios na empresa

Cenipa conclui que avião da Voepass não deveria ter decolado e critica cultura de desvios na empresa

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou, nesta quinta-feira (23), os resultados da investigação sobre o acidente com um avião da Voepass, que ocorreu em Vinhedo (SP) em agosto de 2024. Durante uma coletiva de imprensa, o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes afirmou que a aeronave não deveria ter recebido autorização para decolagem, uma vez que apresentava problemas técnicos significativos, como o limpador de para-brisa inoperante.

Fróes explicou que a Lista de Equipamentos Mínimos permitia a operação da aeronave somente na ausência de previsão de chuvas uma hora antes da decolagem ou uma hora após o pouso. No caso específico do voo em questão, havia previsão de precipitação, o que indicava que o avião não deveria ter sido despachado. O tenente-coronel destacou que, embora o sistema de degelo da aeronave apresentasse uma situação diferente, com a possibilidade de evitar a formação de gelo ao voar em altitudes mais baixas, a falta de registro formal das condições meteorológicas no diário de bordo pelos tripulantes anteriores contribuiu para a situação.

Um dos pontos mais alarmantes destacados pelo Cenipa foi a chamada “normalização do desvio”. Os investigadores relataram que o não registro de falhas técnicas não era um comportamento isolado, mas sim uma prática comum dentro da rotina operacional da Voepass. A análise inicial focou em três voos anteriores ao acidente, onde padrões similares foram identificados. A investigação foi posteriormente ampliada para 1.206 voos, revelando que diversas tripulações adotavam essa abordagem, caracterizando uma cultura organizacional preocupante.

Os investigadores observaram que pequenos problemas eram frequentemente tratados de forma informal, sem o devido registro, o que impedia que a equipe de manutenção realizasse correções adequadas. Quando questionados sobre possíveis sanções para os pilotos que não registraram as falhas, os representantes do Cenipa esclareceram que seu papel não é responsabilizar indivíduos, mas sim identificar fatores que contribuíram para o acidente e emitir recomendações de segurança. Qualquer responsabilização administrativa ou criminal deve ser conduzida pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e pela Polícia Federal.

Durante a coletiva, os investigadores também foram indagados sobre a atuação da Anac. O relatório identificou a fiscalização da agência como um dos 19 fatores que contribuíram para o acidente, embora o Cenipa tenha evitado afirmar que a Anac deveria ter suspendido as operações da companhia. Os militares ressaltaram que a agência havia realizado diversas ações de fiscalização, aplicado sanções, retirado aeronaves de operação e exigido a substituição dos sistemas de degelo da frota, mas essas medidas não foram suficientes para eliminar os riscos existentes. “Apesar de todas as ações, o acidente aconteceu. É necessário que o processo de gerenciamento de risco seja robusto o suficiente para embasar decisões estratégicas”, enfatizou Fróes.

O Cenipa recomendou que a Anac revise seus processos de gerenciamento de riscos para prevenir a repetição de incidentes semelhantes. Quanto à condição dos pilotos, a investigação não encontrou indícios de fadiga, mas concluiu que fatores emocionais poderiam ter causado distrações durante o voo. Os investigadores também afirmaram que, quando a aeronave começou a apresentar perda de desempenho, havia um procedimento previsto pelo fabricante que poderia ter ajudado a evitar a situação crítica. No entanto, o Cenipa destacou que não é possível afirmar que essa medida teria sido suficiente para impedir o acidente, uma vez que a aeronave ainda estaria voando em uma região com previsão de formação severa de gelo.

Ao todo, o relatório identificou 19 fatores contribuintes, incluindo falhas de manutenção, cultura organizacional, problemas operacionais, aspectos humanos e deficiências na gestão de riscos da empresa, além de falhas na fiscalização regulatória.

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