Em um cenário de disputa acirrada entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), principais candidatos à Presidência da República neste ano, a participação do eleitorado nas urnas revela-se um fator de grande impacto na definição do próximo chefe do Executivo brasileiro. Assim como ocorreu em 2022, a expectativa entre especialistas é de que o índice de abstenção continue elevado, o que pode alterar significativamente o resultado final do pleito.
A ausência de votos por parte do eleitorado, embora não altere o número de eleitores aptos, reduz o universo de votos efetivamente considerados na apuração. Quanto maior a taxa de abstenção, menor será a quantidade de votos válidos, o que torna a composição dos eleitores presentes nas urnas ainda mais relevante para determinar o vencedor. Segundo o cientista político Leandro Gabiati, a distribuição da abstenção entre diferentes grupos sociais e regiões é que define seu impacto real no resultado. Caso essa ausência fosse uniforme entre todos os segmentos, seu efeito seria proporcional para todos os candidatos. Contudo, a tendência é de que diferentes grupos apresentem taxas de comparecimento distintas, influenciando a força relativa de seus votos.
Gabiati destaca que, na prática, a composição dos eleitores que comparecem às urnas pode adquirir maior peso na apuração, pois grupos mais motivados a votar tendem a ter maior influência sobre o resultado final. Por isso, as campanhas eleitorais dedicam esforços não apenas na captação de votos, mas também em estimular seus apoiadores a comparecer às sessões de votação, especialmente na última semana antes do dia D.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que, no primeiro turno de 2022, aproximadamente 20,9% dos eleitores, ou cerca de 32,8 milhões de pessoas, deixaram de votar, enquanto no segundo turno esse índice subiu para 20,5%, com aproximadamente 32,2 milhões de ausentes. Esses números reforçam a persistência de uma elevada abstenção no país, mesmo com o voto obrigatório, que impõe sanções simbólicas, como multas de R$ 3,51 para quem não justifica a ausência.
Especialistas apontam que fatores estruturais contribuem para esse cenário. A facilidade de justificar a ausência por meio de aplicativos disponibilizados pela Justiça Eleitoral, por exemplo, tem reduzido os custos de não comparecimento, tornando a abstenção uma consequência mais acessível. Além disso, o envelhecimento da população eleitoral, com maior incidência de eleitores acima de 70 anos, que têm o voto facultativo, também influencia o percentual de ausências. Outro aspecto relevante é o perfil socioeconômico, já que, no primeiro turno de 2022, 55% dos eleitores que se abstiveram tinham até o ensino fundamental completo, eram mais pobres e enfrentavam dificuldades de deslocamento até os locais de votação.
Além dos fatores estruturais, o cenário político atual também exerce influência sobre os índices de abstenção. A polarização entre os grupos que apoiam Lula e Bolsonaro, aliada à presença de uma terceira via que fragmenta o voto, cria um ambiente de desilusão e ceticismo. Segundo Gabiati, a alta competitividade da eleição, com empate técnico entre os principais candidatos, faz com que eleitores desmotivados ou indecisos ponderem que seu voto pode não ser decisivo, levando muitos a optarem por não votar.
É importante distinguir abstenção de voto nulo, pois o primeiro refere-se à ausência do eleitor na urna, enquanto o voto nulo é uma manifestação deliberada de insatisfação, na qual o eleitor comparece às urnas e opta por anular seu voto. Ambos os fenômenos possuem implicações distintas na apuração e na formação do resultado final.
Diante desse panorama, a participação eleitoral permanece como elemento crucial para o desfecho das eleições presidenciais, especialmente em um momento de alta polarização e elevada abstenção, cuja influência pode determinar o vencedor do pleito.


