Pela primeira vez desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, o Congresso Nacional será composto por apenas um parlamentar que integrou a Assembleia Nacional Constituinte responsável pela elaboração do texto constitucional. O deputado federal Sérgio Brito (PSD-BA), reeleito nas eleições de domingo (4/10), será o único entre os 594 deputados e senadores que estarão na próxima legislatura, prevista para iniciar em fevereiro de 2027, a ter participado da criação da atual Carta Magna. Este dado marca uma redução histórica na presença de constituintes na composição do Congresso, sendo o menor número desde o início da vigência da Constituição.
Nos anos imediatamente posteriores à promulgação, entre 1991 e 1995, a primeira legislatura após a Constituição de 1988, 277 parlamentares exerceram mandato no Congresso, sendo 221 na Câmara dos Deputados e 56 no Senado. Com o passar do tempo, essa presença foi diminuindo progressivamente. Na legislatura de 2003 a 2007, por exemplo, apenas 78 antigos constituintes estavam no Congresso, número que caiu para 69 entre 2007 e 2011, e posteriormente para 48 na legislatura seguinte, de 2015 a 2019. Em 2019, o total de constituintes que ainda atuavam era de 18, distribuídos entre oito deputados e dez senadores. A situação se agravou na eleição de 2022, que resultou na redução do grupo para apenas seis parlamentares, e, com os resultados das eleições de domingo, esse número será reduzido a apenas um.
Dentre os atuais constituintes, cinco tentaram se reeleger nas eleições de 2026. Quatro foram derrotados, enquanto Sérgio Brito foi o único a garantir novo mandato, com 148.775 votos, permanecendo na Câmara dos Deputados. Brito, que foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1986 pelo então PFL, participou ativamente da Assembleia Constituinte e permaneceu na Câmara até 1995. Após um período afastado, retornou ao Congresso em 2007, consolidando sucessivas reeleições até hoje. Ele será, portanto, o último representante da geração responsável pela elaboração da Constituição de 1988 a ocupar uma cadeira no Congresso na próxima legislatura.
Outro parlamentar que participou da Assembleia Constituinte, o senador Paulo Paim (PT-RS), decidiu não concorrer às eleições de 2026, anunciando sua aposentadoria. Paim, que atuou inicialmente como deputado federal durante a elaboração da Constituição, foi um dos principais defensores da redução da jornada de trabalho de 48 para 44 horas semanais, limite que, após resistência, foi fixado na atual legislação. A proposta de reduzir a jornada para 40 horas semanais voltou ao centro do debate político contemporâneo, sendo um tema recorrente na campanha presidencial deste ano e alvo de propostas de Emenda à Constituição (PECs).
A Assembleia Nacional Constituinte, instalada em fevereiro de 1987 após o fim do regime militar, contou inicialmente com 559 deputados e senadores, sob a presidência de Ulysses Guimarães (PMDB-SP). O texto, promulgado em 5 de outubro de 1988, simbolizou a redemocratização do Brasil, restabelecendo direitos políticos, proibindo a censura, ampliando o voto e os direitos trabalhistas, além de criar o Sistema Único de Saúde (SUS). Desde então, a composição do Congresso tem se alterado significativamente, com a presença de antigos constituintes diminuindo a cada legislatura.
A mudança na configuração partidária também é evidente. Quando a Assembleia foi instalada, o PMDB (atual MDB) dominava com 303 dos 559 parlamentares, enquanto o PFL, que posteriormente se transformou em DEM e se fundiu ao PSL para formar o União Brasil, tinha a segunda maior bancada, com 135 integrantes. O PT, por sua vez, contava com apenas 16 deputados. Para 2027, o partido de Flávio Bolsonaro, o PL, terá as maiores bancadas na Câmara (121 deputados) e no Senado (28 senadores), totalizando 149 parlamentares, embora esse número ainda não seja suficiente para aprovar mudanças constitucionais sem apoio de outras legendas. Assim, a dependência de acordos políticos será fundamental para a implementação de propostas de alteração na Constituição, caso Flávio Bolsonaro venha a vencer as eleições presidenciais.


