Um documento confidencial elaborado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) revelou que os riscos de ingerência e pressão do governo dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro de 2026 atingiram um nível considerado crítico. Encaminhado ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no final de agosto, o relatório alerta para uma escalada na pressão exercida pelos Estados Unidos sobre o Brasil, caracterizada por uma intensificação seletiva e uma reconfiguração das ações de influência, sem, contudo, romper o padrão estrutural de interferência já existente na relação bilateral.
Segundo o documento, a Abin identifica que a reafirmação do domínio geopolítico dos EUA na América Latina tornou-se prioridade central na estratégia do segundo mandato do ex-presidente Donald Trump. A análise, à qual a coluna de Mônica Bergamo, do jornal Folha de São Paulo, teve acesso, detalha que a estratégia norte-americana visa conter o avanço de potências rivais na região, especialmente a China, impedindo seu acesso a ativos estratégicos e infraestruturas essenciais. Além disso, o relatório aponta que Washington busca forçar o realinhamento de países-chave na sua órbita de influência, adotando uma postura de resistência às tentativas de autonomia por parte de governos que se mostram mais independentes.
Dentro desse cenário regional, o Brasil se destaca por manter um governo com maior disposição política e capacidade de sustentar sua autonomia internacional, o que tem provocado uma resposta mais agressiva por parte de Washington. Como consequência dessa postura de resistência, o país passou a ser alvo de retaliações econômicas, comerciais e diplomáticas por parte da Casa Branca. Um fator que contribuiu para o aumento da tensão foi a atuação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que, segundo o relatório, atuou junto à administração norte-americana, sendo posteriormente condenado pelo Supremo Tribunal Superior (STF) a 4 anos e 2 meses de prisão por coação e por facilitar a interferência dos EUA no Brasil.
A partir de maio, mesmo com momentos de relativa distensão diplomática entre Trump e Lula, a Abin identifica uma ofensiva contínua por parte dos Estados Unidos. Entre as ações, destaca-se a classificação de facções criminosas brasileiras como “organizações terroristas” pelo governo Trump, o que serviu de justificativa para a imposição de barreiras comerciais e sanções administrativas contra alvos específicos no Brasil. Essa estratégia culminou na aplicação de sanções diretas a cidadãos e empresas brasileiras, acusados de vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Essas medidas tiveram impacto direto na economia nacional, restringindo transações em dólar, prejudicando a reputação de empresas brasileiras e expondo instituições financeiras locais a riscos de retaliações secundárias.
O relatório também destaca a atuação de Marco Rubio, senador e secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional de Trump, como uma figura central na articulação dessa política de pressão. Segundo a inteligência brasileira, Rubio buscou personalizar o embate ao atribuir publicamente a Lula a responsabilidade por tarifas comerciais, alimentando narrativas políticas que encontram forte eco na oposição interna ao governo brasileiro. Além disso, o documento aponta que Rubio tem uma postura ideológica voltada a enfraquecer governos progressistas na região, estimulando a ascensão de lideranças conservadoras alinhadas aos interesses de Washington.
No âmbito das tentativas de influência direta no processo eleitoral de 2026, o relatório revela que a Casa Branca chegou a propor uma minuta de declaração conjunta que exigia que o Brasil não limitasse a participação de dissidentes políticos nas urnas, uma ação interpretada por Brasília como uma ingerência na soberania nacional e no judiciário. Em resposta, o presidente Lula rejeitou categoricamente a proposta, classificando-a como “arquivo morto” e reforçando a posição de que o Brasil não aceitará imposições externas sobre suas riquezas minerais e sua autonomia institucional.


