O consumo de suplementos pré-treino, amplamente utilizados por praticantes de atividades físicas para aumentar a disposição antes dos exercícios, pode representar riscos à saúde, mesmo entre jovens considerados saudáveis. Especialistas destacam que a composição do produto, a quantidade ingerida e o histórico de saúde do usuário devem ser criteriosamente avaliados, sobretudo quando a fórmula contém estimulantes como a cafeína, que podem acelerar os batimentos cardíacos e elevar a pressão arterial.
Segundo a médica Ana Paula Simões, diretora da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, a presença de cafeína é comum na maioria das fórmulas de pré-treino, frequentemente acompanhada de ingredientes como creatina, beta-alanina e citrulina. Esses componentes atuam no cérebro, reduzindo a sensação de cansaço e a percepção do esforço durante a prática de exercícios. Contudo, ela reforça que sentir-se mais disposto não significa que o organismo deixe de precisar de descanso adequado. “Quem treina por lazer até sente um efeito agudo, mas o ganho real vem de dormir bem, alimentar-se corretamente e manter uma rotina de treinos consistente”, explica.
A médica também destaca que, embora existam evidências de benefícios específicos de alguns ingredientes isolados, como a creatina, beta-alanina e citrulina, os resultados obtidos com fórmulas comerciais prontas ainda são limitados, muitas vezes curtos e com resultados inconsistentes. Assim, a escolha do suplemento deve ser orientada pelos objetivos individuais e necessidades específicas, e não por recomendações de colegas ou influenciadores digitais. Ela ressalta que, na prática clínica, raramente recomenda o uso de pré-treinos por praticantes recreativos.
Para indivíduos com condições cardíacas, como pressão alta descontrolada, arritmias ou insuficiência cardíaca, a avaliação médica prévia é imprescindível antes do consumo de estimulantes. Ana Paula também recomenda cautela para quem sofre de ansiedade, síndrome do pânico, insônia, doenças renais ou hepáticas. O médico Rodrigo Otávio Bougleux Alô, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, reforça que a decisão de uso depende do tipo de ingrediente, da dose e do controle da doença preexistente. “Uma pessoa com hipertensão bem controlada pode tolerar uma quantidade de cafeína, mas isso não significa que esteja apta a consumir fórmulas com múltiplos estimulantes”, afirma.
A aparência saudável, por si só, não garante ausência de risco. Jovens podem apresentar alterações cardíacas silenciosas que só se manifestam durante exercícios intensos ou na combinação com estimulantes. Histórico familiar de morte súbita, dores no peito, palpitações, desmaios ou falta de ar desproporcional ao esforço físico são sinais que demandam avaliação médica. Para adolescentes, gestantes e mulheres que amamentam, o consumo de estimulantes é desaconselhado, assim como deve ser avaliado cuidadosamente em idosos, considerando doenças preexistentes e medicamentos em uso.
A soma do consumo de pré-treino, café, energéticos e termogênicos pode elevar significativamente a ingestão de cafeína, que tem limite de 400 miligramas por dia para adultos saudáveis, incluindo todas as fontes. No entanto, esse limite não garante segurança individual, uma vez que interações com medicamentos como antidepressivos, descongestionantes, medicamentos para TDAH, além de alguns antibióticos e produtos para emagrecimento, podem prolongar ou intensificar os efeitos da cafeína. Assim, é fundamental que o consumo seja informado ao médico.
Outro aspecto importante é a leitura atenta do rótulo, evitando misturas com ingredientes cujo peso total não revela a quantidade de cada componente. Ingerir o pó de pré-treino diretamente na boca, sem diluição, apresenta risco de aspiração pulmonar e deve ser evitado. Entre os efeitos adversos possíveis estão tremores, ansiedade, irritabilidade, insônia, náusea e diarreia. A beta-alanina, por sua vez, pode causar formigamento passageiro, mas manifestações intensas ou persistentes devem ser motivo de atenção.
Rodrigo Bougleux alerta que há relatos de eventos graves associados ao consumo de determinados produtos, embora não seja possível generalizar esse risco para todas as fórmulas ou estabelecer uma frequência segura de uso. A composição, combinações de ingredientes e a presença de doenças, conhecidas ou silenciosas, influenciam diretamente nos riscos à saúde. Quando o uso de pré-treino torna-se necessário para facilitar o treino ou quando a pessoa apresenta insônia ou palpitações, é fundamental revisar o consumo. A cafeína, especialmente quando ingerida próximo ao horário de dormir, pode prejudicar o sono e comprometer a recuperação muscular.
A orientação dos especialistas é que a investigação da causa do cansaço deve preceder o uso de suplementos. Problemas como sono inadequado, alimentação deficiente, desidratação, excesso de treino ou condições como anemia podem ser responsáveis pelo cansaço excessivo, sendo muito mais eficazes para melhorar o desempenho do que qualquer suplemento. Uma avaliação com médico do esporte e nutricionista é essencial para determinar a necessidade de suplementação, levando em conta a saúde, rotina e objetivos de cada pessoa.


