Adultos que tiveram amigos imaginários na infância relatam com mais frequência a sensação de que há alguém por perto quando estão sozinhos. A associação foi identificada em um estudo publicado em 26 de outubro na revista científica Consciousness and Cognition. Os resultados, no entanto, não comprovam que a experiência infantil provoque diretamente a sensação de presença na vida adulta.
Para investigar a possível relação entre os fenômenos, os pesquisadores analisaram as lembranças de 185 adultos recrutados por meio da Universidade de Economia de Izmir, na Turquia. Do total, 45 participantes disseram se lembrar de ter tido um companheiro imaginário durante a infância. Nenhum dos voluntários relatou diagnóstico psiquiátrico ou neurológico.
Todos responderam a um questionário sobre a frequência com que haviam sentido a presença de outra pessoa, sem que existissem evidências sensoriais claras, no mês anterior à pesquisa. A escala utilizada pelos cientistas variava de 15 a 75 pontos. Quanto maior a pontuação, mais frequentes eram os relatos de perceber alguém por perto.
Entre os adultos que se lembravam de amigos imaginários, a pontuação média foi de 25,51. No grupo que não relatou essa experiência durante a infância, a média ficou em 20,07. A diferença sugere uma associação entre ter tido um companheiro imaginário e apresentar mais episódios de sensação de presença, mas não permite estabelecer uma relação de causa e efeito.
Companheiros imaginários ocupavam a região próxima ao corpo
Os pesquisadores também perguntaram aos participantes que relataram amigos imaginários onde esses personagens costumavam aparecer em relação ao próprio corpo. As lembranças indicaram que eles eram percebidos principalmente à frente ou ao lado da pessoa.
Das 114 estimativas de distância registradas no estudo, 76 colocavam o companheiro imaginário a menos de 70 centímetros do participante. Essa área próxima ao corpo é conhecida como espaço peripessoal. Trata-se da região envolvida em ações cotidianas, como alcançar objetos, movimentar as mãos e interagir fisicamente com outras pessoas.
A partir desses dados, os autores levantaram a hipótese de que a experiência com amigos imaginários pode estar relacionada à forma como o cérebro representa o corpo e o ambiente imediatamente ao redor. Nessa interpretação, o personagem imaginário seria percebido como alguém que ocupa uma posição dentro desse espaço próximo.
Experimentos anteriores com robôs são citados como uma possível explicação para a maneira como o cérebro interpreta a presença de outra pessoa. Nessas experiências, os participantes movimentavam as mãos enquanto um robô tocava suas costas. Quando havia um pequeno intervalo entre o movimento e o toque, alguns voluntários tinham a impressão de que outra pessoa estava atrás deles.
Uma das hipóteses para esse tipo de resposta é que o cérebro tenha dificuldade para determinar a origem dos sinais corporais. Com isso, sensações provocadas pelos próprios movimentos poderiam ser interpretadas como se viessem de outra pessoa.
Localização das presenças varia conforme a experiência
O estudo também identificou uma diferença entre os dois tipos de experiência. Os amigos imaginários eram lembrados principalmente à frente ou ao lado da criança. Já os adultos que sentem a presença de alguém costumam descrever essa figura atrás ou ao lado do corpo.
Para os autores, essa diferença pode estar relacionada ao tipo de interação envolvida. Um amigo imaginário participa de brincadeiras e conversas e, por isso, tende a ser imaginado em uma posição que favoreça a interação. Essa interpretação, porém, ainda é uma hipótese e não foi comprovada pelo estudo.
A pesquisa foi baseada exclusivamente nas lembranças dos adultos sobre a infância. Como os cientistas não acompanharam as crianças ao longo dos anos, não é possível afirmar que ter um amigo imaginário provoque a sensação de presença posteriormente.
O trabalho também apresenta limitações. A maioria dos participantes era mulher, todos foram recrutados por uma única universidade e os voluntários sabiam que a pesquisa tratava de amigos imaginários. Esse conhecimento poderia ter influenciado as respostas fornecidas no questionário.
Os resultados não constituem evidências da existência de fantasmas. O objetivo do estudo foi investigar como o cérebro pode produzir a sensação de que há alguém por perto mesmo quando não existem sinais sensoriais que confirmem essa presença.
Para esclarecer melhor a possível relação, os pesquisadores sugerem que estudos futuros acompanhem crianças ao longo do desenvolvimento. Dessa forma, seria possível observar se a experiência com amigos imaginários na infância continua associada à sensação de presença na vida adulta.


