A política externa do Brasil sob os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e do senador Flávio Bolsonaro apresenta estratégias claramente divergentes, refletindo a polarização política que marca o cenário eleitoral atual. Enquanto Lula, em um possível novo mandato, deve priorizar parcerias bilaterais com foco em regiões específicas e reforçar o papel de blocos multilaterais, Flávio Bolsonaro tende a manter uma linha de alinhamento mais próximo aos Estados Unidos, seguindo orientações de figuras ligadas ao seu projeto político e às referências de política externa de Donald Trump e Javier Milei.
De acordo com interlocutores da gestão atual, Lula deve direcionar sua política externa para fortalecer relações bilaterais com países estratégicos, especialmente na América do Sul, onde há uma tendência de enfraquecimento dos fóruns multilaterais tradicionais. A avaliação é de que organizações como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) tendem a perder força nos próximos anos, sobretudo na região, que atualmente é liderada por presidentes de direita alinhados ao ex-presidente Donald Trump. Nesse contexto, o Itamaraty deve concentrar esforços na relação direta com países específicos, buscando recuperar o protagonismo do Brasil na região e no cenário internacional.
A relação com os Estados Unidos, especialmente sob a gestão Trump, é considerada um tema sensível para Lula em uma eventual reeleição. Apesar de manter um relacionamento cordial com o atual governo americano, membros do governo avaliam que a política do Departamento de Estado, liderado por figuras como Marco Rubio, tende a ser hostil ao Brasil, o que exige cautela e equilíbrio na abordagem diplomática. Lula, ao retomar uma postura pragmática, deve manter o princípio de preservar a autonomia brasileira, evitando um alinhamento automático com Washington. O desafio será equilibrar interesses comerciais com a busca por autonomia e por pontes ideológicas na América Latina.
Já Flávio Bolsonaro, que deve seguir uma linha mais pragmática na política externa, demonstra preferência por uma aproximação maior com os Estados Unidos, alinhando-se às posições de figuras como Donald Trump e Javier Milei, presidente da Argentina. Em declarações públicas, o senador já sinalizou que, em caso de eleição, pretende classificar organizações criminosas como terroristas, seguindo a orientação do ex-presidente norte-americano, que ao longo de 2023 adotou essa classificação para grupos e quartéis na América Latina. Essa postura contrasta com a visão do governo Lula, que teme que tais medidas possam comprometer a soberania brasileira.
Além disso, Flávio Bolsonaro manifestou interesse em aderir ao Escudo das Américas, iniciativa militar liderada pelos Estados Unidos voltada ao combate ao crime organizado transnacional, narcotráfico, tráfico de armas e lavagem de dinheiro. O Brasil, sob a atual gestão, não foi convidado a participar do projeto, que inclui países de direita na região. A estratégia do senador também contempla uma maior aproximação com países que mantêm relações menos estreitas com o governo Lula, priorizando afinidades ideológicas e parcerias com governos conservadores, o que representa uma mudança significativa na diplomacia brasileira.
Em suma, enquanto Lula aposta na revitalização de relações bilaterais e no fortalecimento de blocos multilaterais com foco na América do Sul, Flávio Bolsonaro busca uma política externa mais alinhada aos interesses e ao discurso de Washington, reforçando uma agenda de maior pragmatismo e de aproximação com governos de perfil conservador. Essas diferenças evidenciam os rumos distintos que o Brasil pode seguir dependendo do resultado das próximas eleições presidenciais.


