O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, na região Central de Minas Gerais, completou 11 anos nesta quinta-feira (5) sem que muitas famílias atingidas tenham conseguido reconstruir a vida interrompida pela tragédia. O desastre, ocorrido em 5 de novembro de 2015, matou 19 pessoas e afetou mais de 600 mil moradores. A data foi marcada por homenagens às vítimas, manifestações e novos relatos sobre perdas que continuam sem reparação integral.
Uma das pessoas que ainda convivem com as consequências do rompimento é a dona de casa Pâmela Fernandes. Moradora de Bento Rodrigues na época da tragédia, ela perdeu a filha Emanuele, que tinha cinco anos. Além da morte da criança, Pâmela viu desaparecer a casa, as lembranças e a comunidade onde havia construído sua história.
Para ela, o aniversário do desastre reabre uma dor que vai além da destruição material. “O dia de hoje é bem difícil pra mim, porque além de ter perdido meu lugar, minha casa, minhas lembranças e toda minha vida que eu tinha lá, eu perdi o que tinha de mais valioso, que era minha filha Emanuele, que só tinha 5 aninhos. A empresa não teve misericórdia de ninguém!”, declarou.
Pâmela decidiu não viver no reassentamento de Novo Bento Rodrigues, embora parte de seus familiares esteja no local. Segundo a dona de casa, a mudança não representaria a recuperação da rotina e da felicidade que existiam antes do rompimento. “O reassentamento não foi uma opção pra mim, porque eu sempre imaginei que não seria a mesma coisa e que eu não seria feliz lá e talvez em lugar nenhum”, afirmou.
Manifestação cobra cumprimento de compromissos
Na manhã desta quinta-feira (5), moradores e outros atingidos organizaram um protesto na entrada de Novo Bento Rodrigues. A mobilização interrompeu o trânsito no local, com a ocupação da pista e o uso de faixas, para exigir que as mineradoras cumpram as obrigações assumidas no processo de reparação.
O ato reuniu crianças, idosos e parentes de pessoas que morreram no desastre. Viaturas policiais acompanharam a manifestação. Entre as reclamações apresentadas estavam problemas estruturais nas casas, obras que ainda não teriam sido finalizadas e a necessidade de reparos em imóveis. As reivindicações foram feitas mesmo após a Samarco comunicar que os trabalhos haviam sido concluídos.
Os atingidos também pediram o pagamento de multas associadas ao atraso na entrega das obras. Conforme os manifestantes, dois anos depois da assinatura do novo acordo de reparação, nenhuma família havia recebido a indenização prevista no documento.
Acordo estabelece recursos para estados e municípios
Firmado por Samarco, Vale e BHP Billiton com o poder público, o novo acordo prevê R$ 169 bilhões para medidas de reparação e compensação pelos danos causados pelo rompimento. Desse total, R$ 100 bilhões devem ser destinados aos estados e municípios atingidos.
A Defensoria Pública de Minas Gerais informou que sua atuação contribuiu para que mais de 29 mil famílias tivessem acesso a indenizações relacionadas aos prejuízos no abastecimento de água. O acordo também instituiu o Programa de Indenização Definitiva (PID), voltado às pessoas que ainda aguardam compensação, e criou um programa de transferência de renda para moradores de Mariana.
Apesar dos valores previstos e das medidas já anunciadas, famílias continuam cobrando a execução completa das obrigações. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) promove mobilizações em memória das vítimas e pela garantia de direitos das comunidades afetadas.
Joceli Andrioli, integrante da Direção Nacional do MAB, informou que o movimento entregará um documento à equipe de transição do governador eleito de Minas Gerais. O material reúne reivindicações relacionadas às dívidas sociais e ambientais deixadas por tragédias envolvendo barragens no estado.
Segundo Joceli, o governo de Romeu Zema não apresentou uma proposta considerada robusta para os atingidos nem assegurou participação social abrangente durante o período. O representante afirmou que o documento pretende abrir um diálogo permanente com a equipe de transição, com o governador e com os integrantes da próxima gestão para discutir os direitos das comunidades atingidas em todas as regiões mineiras.
O dirigente também defendeu que os moradores afetados participem das decisões sobre as medidas de reparação. Na avaliação dele, a próxima administração receberá um passivo social e ambiental profundo e terá a oportunidade de interromper o ciclo de descaso, priorizando vidas humanas e o meio ambiente em relação aos interesses do setor minerário.
Governo de Minas e Samarco divulgam posicionamentos
Em nota publicada nesta quinta-feira, o Governo de Minas manifestou solidariedade aos familiares das vítimas e reafirmou o compromisso com a reparação dos danos provocados pelo rompimento da barragem de Fundão. O Executivo estadual também reiterou o compromisso com a execução do Acordo do Rio Doce.
A Samarco informou que, desde o desastre, mais de 648 mil pessoas foram indenizadas e R$ 82,6 bilhões foram aplicados em ações de reparação. A empresa declarou que o Novo Acordo do Rio Doce, homologado pelo Supremo Tribunal Federal em 2024, prevê R$ 170 bilhões para reparar e compensar os danos.
A mineradora afirmou ainda que os reassentamentos de Novo Bento Rodrigues e Paracatu foram concluídos. Ao todo, foram entregues 395 obras, incluindo moradias e estruturas públicas. A Samarco disse que manterá suporte técnico para eventuais problemas nas construções durante cinco anos após a entrega das chaves.


