A percepção de que duas pessoas da mesma idade podem apresentar condições físicas e de saúde bastante diferentes é uma realidade reconhecida por especialistas na área de envelhecimento. Essa variação não está relacionada apenas ao tempo de vida, ou seja, à idade cronológica, mas também ao modo como o organismo responde ao passar dos anos, influenciado por fatores que se acumulam ao longo da vida.
Segundo o endocrinologista Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), o envelhecimento não é um processo uniforme. Ele explica que a idade cronológica, que corresponde ao número de anos vividos, não reflete necessariamente o estado de saúde ou o grau de envelhecimento biológico de uma pessoa. Para Hohl, o envelhecimento biológico resulta de uma combinação complexa de fatores genéticos, metabólicos, ambientais e comportamentais que se acumulam ao longo dos anos, tornando cada indivíduo único nesse processo.
Essa distinção é fundamental para compreender por que duas pessoas de mesma idade podem apresentar diferenças marcantes em aspectos como saúde cardiovascular, força muscular, metabolismo e funções cognitivas. A médica Priscilla Mussi, coordenadora do programa Cuidar+ do Hospital Santa Lúcia (HSL), reforça essa ideia ao afirmar que o histórico de vida de cada pessoa influencia diretamente na velocidade e na forma do envelhecimento. Ela destaca que fatores modificáveis — ou seja, aqueles que podem ser alterados por mudanças de comportamento — desempenham papel importante nesse processo.
Embora a genética exerça influência na forma como envelhecemos, ela representa uma parcela relativamente pequena, estimada em cerca de 30% do processo. Os demais 70% estão associados ao estilo de vida adotado ao longo da vida, incluindo hábitos diários, alimentação, níveis de atividade física, consumo de substâncias como álcool e tabaco, além do controle de doenças crônicas. Hohl reforça que escolhas cotidianas têm impacto direto na velocidade do envelhecimento, podendo modificar significativamente o estado de saúde na fase avançada da vida.
Alguns comportamentos e fatores de risco estão associados a um envelhecimento mais acelerado. Entre eles, a alimentação baseada em ultraprocessados, a privação de sono, o uso excessivo de cigarro e álcool, além do estresse elevado. Essas condições favorecem alterações no organismo, como inflamação, resistência à insulina, perda de massa muscular e maior incidência de doenças cardiovasculares. Priscilla Mussi destaca que esses fatores contribuem para uma deterioração mais rápida do corpo, acelerando o processo de envelhecimento.
Apesar de não existir uma forma de interromper completamente o envelhecimento, é possível alcançar idades mais avançadas com melhor condição física e funcional. Para isso, recomenda-se a prática regular de atividade física, uma alimentação equilibrada, sono de qualidade, gerenciamento do estresse e acompanhamento de condições clínicas como hipertensão, diabetes e dislipidemias. Hohl enfatiza que a atividade física, em particular, traz benefícios comprovados para o sistema cardiovascular, metabolismo, cognição e funcionalidade geral do organismo.
Priscilla Mussi acrescenta que mudanças de hábitos podem ser feitas em qualquer fase da vida, reforçando que nunca é tarde para adotar práticas que melhorem a qualidade de vida na terceira idade. Mesmo após os 60 anos, é possível modificar o modo como o corpo envelhece, contribuindo para uma longevidade mais saudável e ativa. Assim, o entendimento de que o envelhecimento é influenciado por fatores modificáveis reforça a importância de escolhas conscientes ao longo do tempo, com impacto direto na saúde e bem-estar na fase avançada da vida.


