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TSE antecipa questionamento sobre vídeo com IA que simula discurso de Bolsonaro na convenção de Flávio

TSE antecipa questionamento sobre vídeo com IA que simula discurso de Bolsonaro na convenção de Flávio

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já trabalha com a expectativa de que um vídeo produzido com inteligência artificial para simular um pronunciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, exibido neste sábado (25) na convenção nacional do PL, que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência, será alvo de questionamentos na Corte. O material foi apresentado durante o evento em que o partido confirmou a postulação de Flávio para o cargo máximo da política nacional, com Bolsonaro aparecendo na gravação apoiando o filho. A avaliação entre técnicos e especialistas é de que o episódio pode acender debates sobre a aplicação das regras eleitorais em relação ao uso de IA e sobre o alcance das restrições impostas, por Moraes, ao ex-presidente.

O advogado especialista em Direito Eleitoral Luiz Eduardo Peccinin, doutor em Direito do Estado, destacou que as normas do TSE devem ser observadas também no período pré-eleitoral e em atos realizados durante convenções partidárias. Segundo ele, mesmo com a identificação de que o vídeo foi produzido por inteligência artificial, a peça pode ser levada à Justiça Eleitoral para avaliação de eventual uso irregular da imagem e da voz de uma pessoa real em uma manifestação de natureza eleitoral. “A norma prevê que conteúdos criados ou significativamente alterados por IA devem informar, de forma explícita, destacada e acessível, que o material foi fabricado ou manipulado e indicar a tecnologia utilizada”, afirmou Peccinin.

Sobre o conteúdo audiovisual em si, a normativa do TSE também estabelece que há proibição de publicação e reaplicação de conteúdos sintéticos que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou de pessoas públicas, mesmo quando identificados, entre 72 horas antes e 24 horas após o encerramento da votação. A regra busca evitar que conteúdos manipulados influenciem o processo eleitoral em momentos sensíveis do ciclo. A leitura, segundo Peccinin, é de que o episódio pode ser enquadrado nesse estágio, dependente de como serão interpretadas as implicações da IA no material apresentado.

Apesar disso, Peccinin ressalta que o episódio pode ser analisado sob a ótica das determinações impostas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, que proibiu a divulgação de manifestos político-eleitorais do ex-presidente, inclusive por terceiros e independentemente do meio utilizado. O especialista avalia que não há uma proibição expressa ao uso da imagem ou da voz de Bolsonaro para a difusão de mensagens políticas, o que, a princípio, não permitiria concluir pelo descumprimento da decisão. “Claramente eles estão testando os limites impostos pela sentença condenatória criminal”, afirmou à CNN, ao discutir o caso.

Mesmo com essa leitura, Peccinin afirma acreditar que o caso deve chegar a Moraes, que terá a última palavra sobre se a gravação reduz-se a uso da imagem pública de Bolsonaro ou representa uma forma indireta de divulgar uma manifestação político-eleitoral atribuída a ele. O debate, segundo o advogado, envolve a avaliação de se houve participação, conhecimento ou anuência do ex-presidente na elaboração do vídeo. “É preciso não atribuir a um terceiro que não participou pessoalmente algo que decorre da utilização da sua imagem, ainda que com uma simulação de realidade”, completou.

Para Guilherme de Salles Gonçalves, advogado eleitoral e membro da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político), eventual responsabilização de Bolsonaro ficaria sujeita à produção de provas de que o ex-presidente, que hoje está sob regime de prisão domiciliar, tinha ciência, participou ou consentiu com a criação do material. “É preciso ter clareza de que não se pode imputar a um terceiro, que não participou diretamente, consequências decorrentes da utilização da imagem de alguém”, afirmou. Gonçalves reforçou ainda que a aplicação de sanções não deve ocorrer de maneira automática apenas pela utilização de uma figura pública, sem elementos de participação ou indução do relevante responsável.

O debate sobre o uso de IA em peças eleitorais, o alcance de regras de propaganda e a aplicação de decisões judiciais envolvendo figuras públicas no cenário político permanece em aberto, especialmente em momentos em que convenções partidárias e campanhas começam a ganhar intensidade. O TSE, por sua vez, observa com atenção a evolução tecnológica e as implicações jurídicas, buscando manter o equilíbrio entre a liberdade de expressão, a integridade do processo eleitoral e a proteção de direitos de imagem e de voz de indivíduos públicos.

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