PSB e PDT iniciaram conversas sobre a formação de uma federação partidária com o objetivo de ampliar a força das duas legendas no Congresso e construir uma estratégia conjunta para as eleições de 2030. O movimento ocorre após as eleições e considera um cenário político sem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no último domingo para o quarto mandato presidencial.
As discussões ganharam força no PDT depois do primeiro turno. O presidente nacional da legenda, Carlos Lupi, reuniu integrantes do partido em Brasília para tratar dos próximos passos da sigla. Segundo relatos de pessoas que participaram do encontro, o clima interno era de divisão, especialmente diante do desempenho eleitoral e das alternativas para garantir a sobrevivência política do partido.
Uma possível federação com o PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin, é apoiada por uma ala do PDT, sobretudo entre deputados. Os primeiros sinais de aproximação já apareceram em iniciativas conjuntas das duas legendas. Um exemplo foi a nota assinada por PSB e PDT em apoio à reeleição do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
No PSB, o presidente nacional da legenda, João Campos, está entre os principais defensores da aliança. Pela legislação, uma federação partidária deve ser mantida por pelo menos quatro anos. Durante esse período, os partidos passam a atuar, na prática, como uma única agremiação, compartilhando decisões e estratégias eleitorais. Por isso, o modelo também pode funcionar como uma etapa preliminar para uma eventual fusão entre as siglas.
Alguns dirigentes do PDT avaliam justamente essa possibilidade como uma alternativa para evitar o enfraquecimento do partido. Um líder ouvido pela reportagem defendeu que a legenda construa um projeto político conjunto e de longo prazo, identificado com o “centro, não o centrão”, mirando as eleições de 2030. A avaliação considera que a centro-esquerda poderá perder seu principal líder eleitoral, já que Lula, que completa 81 anos nesta terça-feira (26/10), tem afirmado que a campanha atual foi sua última disputa presidencial.
A ausência de Lula tende a abrir uma disputa pelo espaço político construído pelo presidente entre partidos da base governista e dentro do próprio PT. As articulações, porém, não estão restritas ao campo da centro-esquerda. O PSDB também passou a avaliar possibilidades para o futuro.
Comandado por Aécio Neves, o PSDB teve desempenho melhor do que o esperado nas eleições, elegendo dois governadores. Em federação com o Cidadania, formada em 2022, o partido também contribuiu para a eleição de 11 deputados federais, resultado suficiente para superar a cláusula de barreira. Diante dessa situação mais confortável, Aécio foi procurado por parlamentares interessados em sondar possíveis federações futuras. O presidente tucano não tomou decisão, mas também não descartou conversas, inclusive com o PDT.
O PDT foi uma das siglas que mais perderam espaço nas eleições, elegendo apenas seis deputados federais. Como não atingiu a cláusula de barreira, o partido deixa de ter acesso ao Fundo Partidário, perde a presença na propaganda eleitoral gratuita e não contará com uma cadeira no colégio de líderes da Câmara.
O PSB, por sua vez, manteve o tamanho de sua bancada atual, com 15 deputados. Caso a federação com o PDT seja concretizada, as duas siglas reuniriam 21 parlamentares e formariam a oitava maior bancada da Câmara a partir de 2027. A composição do Congresso, no entanto, tende a manter uma correlação de forças favorável à direita, independentemente do resultado registrado no último domingo.
O PL de Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula, elegeu as maiores bancadas da Câmara e do Senado, com 121 deputados e 28 senadores. As legendas que declararam apoio ao senador no segundo turno — Republicanos, a Federação União/PP e o Podemos — somam outros 155 deputados e 20 senadores.
Criadas na reforma eleitoral aprovada em 2021, as federações foram concebidas como uma forma de unir partidos com visões semelhantes. Atualmente, há cinco federações registradas no Tribunal Superior Eleitoral. Três foram formadas em 2022: Brasil da Esperança, integrada por PT, PCdoB e PV; PSol e Rede; e PSDB e Cidadania. A Federação Renovação Solidária, composta por Solidariedade e PRD, foi deferida em 2025. A mais recente é a União Progressista, formada por União Brasil e PP, registrada em 2026.
Apesar da proposta de unificar estratégias, o modelo enfrenta dificuldades nos estados. Em determinadas disputas locais, os partidos federados podem estar em grupos políticos diferentes, o que provoca conflitos internos e até a saída de integrantes.
Um exemplo ocorreu na Paraíba, no âmbito da Federação União/PP. O União Brasil e o PP tinham pré-candidatos distintos ao governo estadual: o senador Efraim Filho e o governador Lucas Ribeiro, respectivamente. Enquanto Efraim mantinha maior proximidade com a oposição, Ribeiro era aliado de Lula. O conflito levou o senador a migrar para o PL. Na eleição, Efraim acabou derrotado por Lucas Ribeiro ainda no primeiro turno.


