Entre os meses de janeiro e julho de 2023, o iFood recebeu um total de 1.188 relatos de episódios de violência envolvendo seus entregadores, o que corresponde a uma média de aproximadamente 5,6 ocorrências por dia. Os dados revelam que as principais denúncias referem-se a casos de discriminação e ameaças, que lideram o ranking de queixas direcionadas à central de apoio aos trabalhadores da plataforma. Além disso, outras plataformas de entrega de refeições também têm registrado relatos semelhantes, indicando uma preocupação mais ampla no setor.
Dos quase 1,2 mil casos relatados, cerca de 300 tiveram a motivação explicitamente mencionada pelos entregadores. Desses, aproximadamente 75% das denúncias envolvem situações de discriminação ou ameaças, enquanto cerca de 25% referem-se a agressões físicas. Vale destacar que uma única denúncia pode incluir mais de um tipo de reclamação, refletindo a complexidade e a gravidade das ocorrências. Como consequência dessas denúncias, a plataforma aplicou, no mesmo período, cerca de 1.600 sanções a clientes e estabelecimentos comerciais que violaram suas políticas de conduta.
Casos de violência contra entregadores já tiveram grande repercussão no país. Um exemplo emblemático ocorreu em 31 de julho de 2020, na cidade de Valinhos (SP), quando o motoboy Matheus Pires Barbosa, de 19 anos, foi vítima de racismo e humilhação durante uma tentativa de entrega. Matheus tentou deixar a encomenda na portaria de um prédio, mas foi impedido pelo cliente, um contabilista que, durante uma discussão, proferiu ofensas racistas e socioeconômicas contra o entregador. O homem chamou Matheus de “seu lixo” e afirmou que ele tinha inveja da pele branca do cliente, além de fazer comentários preconceituosos. O episódio resultou em ações judiciais contra o cliente, que foi banido do aplicativo, embora tenha sido absolvido pela Justiça ao alegar esquizofrenia. Matheus, por sua vez, hoje é empresário no setor de construção civil.
Outro incidente de grande repercussão aconteceu em 9 de abril de 2023, durante a Páscoa, na capital paulista. A ex-atleta de vôlei Sandra Mathias passou a insultar e agredir verbalmente entregadores, incluindo Max Ângelo dos Santos, a quem chegou a desferir chicotadas nas costas com a guia de seu cachorro. Sandra chamou os motoboys de termos preconceituosos, como “lixo”, “marginais” e “favelados”. Ela foi posteriormente condenada a cumprir quatro anos de prisão em regime aberto, e o processo cível para eventual indenização às vítimas está previsto para julgamento ainda neste ano.
Embora a maioria dos casos de violência envolva entregadores como vítimas, há registros de agressões também por parte desses trabalhadores. Em dezembro do ano passado, um porteiro de cabelos brancos foi agredido com uma “voadora” por um entregador em um prédio de Brasília, após um desentendimento ocorrido no local. Esses episódios evidenciam o grau de conflito potencial no setor de entregas por aplicativos.
Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 4 de outubro de 2023, o Brasil possuía, em 2025, aproximadamente 1,959 milhão de trabalhadores por aplicativos, sendo cerca de 585 mil atuando na entrega de alimentos e produtos, com 376 mil identificados especificamente como entregadores. Esses números reforçam a importância de políticas e ações que visem à segurança e ao bem-estar desses profissionais.
Em resposta ao aumento dessas ocorrências, plataformas de entrega vêm adotando medidas para combater a discriminação e a violência. O iFood, por exemplo, lançou uma Política de Combate à Discriminação e Violência, que oferece suporte psicológico e jurídico gratuito aos entregadores vítimas de episódios de abuso. Segundo Johnny Borges, diretor de Impacto Social da plataforma, o objetivo é fazer com que os entregadores não se sintam isolados ao enfrentarem situações de discriminação ou agressão, além de conscientizar a sociedade sobre a importância do respeito.
A 99 Food também reforçou sua postura de tolerância zero contra condutas discriminatórias ou violentas. A plataforma dispõe de uma Central de Segurança 24 horas, onde incidentes podem ser reportados, e uma equipe especializada investiga as ocorrências, oferecendo assistência médica e psicológica, conforme necessário. A Keeta, por sua vez, também destacou possuir uma central de segurança operacional 24 horas e que investiga todas as reclamações de comportamentos antiéticos, adotando medidas cabíveis conforme suas políticas internas.
Essas ações demonstram uma preocupação crescente do setor de entregas por aplicativos em criar ambientes mais seguros e respeitosos para seus trabalhadores, diante de um contexto de alta incidência de episódios de violência e discriminação.


