Ex-embaixadores consultados pelo Metrópoles avaliam que o período eleitoral brasileiro impactou as negociações sobre o tarifaço com os Estados Unidos. Nesta semana, o Brasil foi alvo de duas novas tarifas, mesmo após meses de conversas entre os dois países.
Rubens Barbosa, que já exerceu as funções de embaixador do Brasil em Londres e em Washington, sustenta que o governo brasileiro politizou internamente a disputa com os Estados Unidos em meio ao ciclo eleitoral que se aproxima. Para o diplomata, a gestão que hoje dirige o país trouxe para o debate externo o peso da agenda doméstica, influenciada pelas eleições previstas para outubro.
Barbosa afirma que o governo de Donald Trump “mudou a regra do jogo” na relação com todos os países, não apenas com o Brasil. “O que vale é a lei da selva, cada país defende seus interesses. A gente está misturando política externa com partidarismo e política interna. Uma coisa é o interesse nacional como política de estado na área econômica, outra é a ideologia e o partidarismo. Precisamos separar isso no Brasil, senão vamos sair prejudicados. O que acontece é que está prevalecendo a política interna sobre a política nacional do país”, disse o ex-diplomata.
Segundo ele, ao defender a reciprocidade, o governo elevou o tom das críticas aos Estados Unidos, o que, na visão de Barbosa, pode soar prejudicial em um momento de aproximação entre governos, especialmente em período em que Washington já sinaliza interesse considerável em influências no cenário brasileiro. “Temos que ter estratégia de negociação com os Estados Unidos e, durante esse período atual, acho que vai haver um problema político ainda maior, porque vai ter inferência direta americana no Brasil. Vai ter contaminação com desinformação e, nesse período, não pode ter negociação. A partir de janeiro, o país precisa pensar em uma estratégia para negociar com os Estados Unidos, porque agora prevalece a narrativa de política externa”, avaliou.
Visões divergentes sobre o efeito do pleito na política comercial
Outro ex-embaixador consultado pelo Metrópoles — que pediu para não ser identificado — entende que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) procurou singularizar a política comercial adotada pelo governo de Donald Trump em relação ao Brasil. “Não é só o Brasil que está sendo afetado pelas taxas, o mundo inteiro está sendo afetado, não é algo exclusivo do Brasil”, afirmou o diplomata.
Para ele, a narrativa governamental traz um viés eleitoral. “Brigar com os Estados Unidos é uma medida que pode dar voto, isso é uma decisão política e comumente adotada por governos populistas; a narrativa do inimigo externo funciona com o eleitor”, disse. A retórica de Térmica das tarifas, adotada por Trump, acabou se tornando instrumento na polarização interna brasileira, com leituras distintas: enquanto a gestão Lula a utiliza para sustentar um discurso de soberania, cargos e aliados de Lula apontam para uma tentativa de manter o controle da agenda doméstica.
Visão de Rubens Ricupero sobre a postura norte-americana
Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e diplomata, ex-embaixador do Brasil em Washington, acredita que há um viés político evidente na postura norte‑americana. “A medida teve motivação político-ideológica e nunca houve negociação de boa fé da parte norte-americana. As razões mencionadas por autoridades dos EUA mostram isso claramente”, afirmou o ex-ministro.
Ainda segundo Ricupero, apesar de reconhecer um padrão geral de posicionamento unilateral e protecionista sob o governo Trump, nota-se uma atuação especialmente agressiva em relação a produtos brasileiros. Do ponto de vista do Palácio do Planalto, as tarifas são utilizadas para pressionar o governo Lula de modo desfavorável e com a intencionalidade de influenciar as eleições, favorecendo Flávio Bolsonaro, com quem a gestão Trump mantém proximidade.
O ex-embaixador não descarta a possibilidade de reversão das tarifas apenas em um cenário futuro, quando haja um momento sem a presença de Donald Trump na Casa Branca. Ele afirma que, para contrapor o atual conjunto de medidas, é preciso considerar uma janela de negociação posterior, com o objetivo de reverter as sobretaxas aplicadas aos produtos brasileiros.
Medida de reciprocidade e cautela do governo
Após o anúncio da segunda sobretaxa contra o Brasil, o governo Lula informou que acionaria “imediatamente” os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade. A legislação, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, autoriza o Brasil a retaliar ou aplicar sobretaxas equivalentes contra países que imponham barreiras comerciais unilaterais aos produtos brasileiros. No entanto, para os ex-embaixadores, a reciprocidade não é vista como panaceia: pode elevar as tensões políticas entre as duas nações e prejudicar o setor industrial do Brasil.
Por outro lado, integrantes do governo consultados sob reserva pela reportagem defendem uma aplicação cautelosa da medida. Segundo interlocutores próximos às negociações com Washington, nenhuma decisão será tomada sem consulta ao setor produtivo brasileiro. “Tudo vai ser cuidadoso e vamos encontrar um caminho que possa causar impacto neles (Estados Unidos) mas sem prejudicar nossos produtores e nossos setores”, disse um representante do governo com atuação direta nas tratativas com Washington.


