Um morador de Brasília, Ilson Iglesias, de 58 anos, recebeu o diagnóstico de câncer espinocelular de base de língua, um tipo de carcinoma de orofaringe associado ao papilomavírus humano (HPV), após meses de adiamento em buscar ajuda médica. O que inicialmente parecia ser uma dor de garganta persistente e uma afta na língua acabou revelando uma condição muito mais séria. O receio de receber um diagnóstico negativo, especialmente após a perda da mãe para a mesma doença três anos antes, fez com que Ilson hesitasse em procurar um especialista.
Quando finalmente decidiu buscar atendimento, a doença já se encontrava em um estágio avançado. Ele descreve o momento do diagnóstico como devastador: “Meu mundo acabou. Tenho uma bela esposa e três filhos: um filho de 12 anos, que ainda precisa muito de mim; e outros dois, de 22 e 28 anos. Foi uma loucura. Para mim, a morte era certa, apenas uma questão de tempo. Nada mais fazia sentido”, relatou em entrevista ao Metrópoles.
Ilson perdeu 25 quilos devido à progressão da doença, o que o levou a buscar ajuda médica. “Apesar de já saber que as coisas não estavam normais, o medo de descobrir a verdade me fez tentar diversos remédios para atenuar a dor de garganta e tentar curar a afta que só aumentava”, afirmou. Segundo a oncologista Fernanda Guedes, do Hospital Brasília, a incidência de câncer de cabeça e pescoço associado ao HPV tem crescido significativamente nas últimas décadas. Nos Estados Unidos e na Europa, o HPV é responsável por cerca de 60% a 70% dos novos casos de câncer de orofaringe, um aumento atribuído a mudanças nos comportamentos sexuais, sendo o sexo oral um dos principais fatores de risco.
Fernanda destaca que o HPV tipo 16 está presente em 86,9% dos casos de câncer de orofaringe associados a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Embora o tabaco e o álcool tenham sido considerados os principais fatores de risco por muitos anos, sua prevalência está diminuindo, enquanto a infecção por HPV se torna cada vez mais relevante. O tabagismo, no entanto, continua a ser um fator de risco significativo, aumentando a probabilidade de câncer em pacientes com mais de 50 anos.
O dentista Fábio de Abreu Alves, presidente da Câmara Técnica de Estomatologia do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), ressalta que a análise da cavidade oral durante consultas odontológicas é crucial para a detecção precoce de alterações que podem indicar câncer. Quando identificadas, as alterações levam ao encaminhamento imediato para um especialista em oncologia.
O diagnóstico de Ilson ocorreu no início de 2023. Dada a gravidade do seu estado, ele foi submetido a uma cirurgia de sete horas e ficou internado por dez dias. O tratamento incluiu seis sessões de quimioterapia e 30 sessões de radioterapia, durante as quais enfrentou dificuldades para falar e se alimentar, necessitando de uma sonda para manter sua nutrição. Ele também passou por fisioterapia e fonoterapia para recuperar funções básicas.
Após quatro meses de tratamento, Ilson recebeu a boa notícia de que o câncer não apresentava mais evidências. Para celebrar a conclusão do tratamento em julho, ele viajou com a família para Cusco, no Peru. Agora, ele deve realizar monitoramentos a cada três meses para verificar a ausência de novos focos da doença. “Até junho ainda me alimentava por sonda. Hoje, apesar de um pouco de dificuldade, já como de tudo. Mas a luta continua. Tenho exame de imagem no final de agosto”, afirmou. “O fato é que atualmente me importo muito com meu presente. O futuro a gente vai construindo”, concluiu.
Julho é o mês dedicado à conscientização sobre o câncer de cabeça e pescoço, e casos como o de Ilson ressaltam a importância de buscar ajuda médica ao notar sintomas que podem parecer triviais. A oncologista Fernanda Guedes alerta que o receio do diagnóstico pode levar a um atraso na busca por atendimento, resultando em descobertas da doença em estágios mais avançados, o que exige tratamentos mais intensivos.
Os especialistas enfatizam que a vacinação contra o HPV, especialmente entre os jovens, bem como a atenção a sinais persistentes, a prática de sexo seguro, a cessação do tabagismo, a redução do consumo de álcool, a identificação de lesões pré-malignas e consultas regulares com médicos ou dentistas são fundamentais para a prevenção e detecção precoce desse tipo de câncer.


