O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliou favoravelmente o resultado das eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3/11). A vitória do Partido Democrata, que assegurou à legenda o comando da Câmara dos Representantes e do Senado, foi interpretada como uma derrota política para o presidente Donald Trump e pode alterar o ambiente das relações entre Washington e Brasília.
Além da disputa pelo Congresso, os democratas obtiveram resultados expressivos nas eleições estaduais. O partido conquistou governos em áreas que até então estavam sob administração republicana, como Geórgia, Iowa, Texas, Ohio e Nevada. O desempenho passou a ser descrito por aliados e integrantes do governo brasileiro como uma “onda azul”, em alusão à cor tradicionalmente associada aos democratas.
A dimensão do revés imposto a Trump foi destacada por integrantes da base de Lula, que fizeram paralelos entre o resultado norte-americano e a eleição do presidente brasileiro. Nas redes sociais, governistas classificaram o desempenho republicano como uma “derrota acachapante”. A leitura predominante entre os aliados do Palácio do Planalto é que o novo equilíbrio político em Washington reduz a margem de ação do presidente dos Estados Unidos.
Planalto espera retomada de negociações comerciais
O governo brasileiro aguardava a conclusão das midterms para definir uma avaliação mais clara sobre os próximos passos da agenda bilateral. Nos meses anteriores, as relações entre Brasil e Estados Unidos haviam sido afetadas por conflitos políticos e comerciais, que provocaram maior distanciamento entre as duas administrações.
Com a configuração resultante das urnas, a expectativa em Brasília é de que assuntos que permanecem sem solução possam voltar à mesa de negociação. O principal deles é o chamado tarifaço aplicado pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. As conversas entre representantes dos dois países foram retomadas em agosto, após uma conversa telefônica entre Lula e Trump, mas acabaram interrompidas durante o período eleitoral norte-americano.
A mudança na composição do Congresso dos Estados Unidos é considerada relevante porque o controle das duas Casas amplia a capacidade dos democratas de examinar atos do governo Trump e criar obstáculos para propostas defendidas pelo presidente nos próximos dois anos. A nova maioria também poderá aumentar a pressão política sobre a administração republicana e dificultar a aprovação de projetos encaminhados pela Casa Branca.
Meio ambiente e big techs estão entre os temas de interesse
Na avaliação de integrantes do governo Lula, o novo cenário em Washington pode favorecer debates sobre assuntos prioritários para a política internacional brasileira. Entre os temas mencionados estão a preservação ambiental e a regulação das grandes empresas de tecnologia, conhecidas como big techs.
A atuação das plataformas digitais ganhou destaque no Brasil durante a campanha eleitoral. Segundo governistas, o período foi marcado por “desequilíbrios” no funcionamento dessas empresas, com atenção especial à Meta. A possibilidade de discutir esse tipo de regulação no cenário internacional é vista como uma das áreas em que a mudança no Congresso norte-americano pode abrir espaço para convergências.
Apesar da avaliação positiva sobre a vitória democrata, o Palácio do Planalto mantém uma postura cautelosa. A relação entre os dois países acumulou episódios de tensão, além do impasse provocado pelas tarifas impostas a mercadorias brasileiras.
Entre os casos que contribuíram para o desgaste esteve a restrição do visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti. Outro episódio envolveu o senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado nas eleições brasileiras, que viajou para Miami, na Flórida, em descumprimento de uma decisão judicial. Posteriormente, o governo dos Estados Unidos concedeu a ele um visto de permanência no país, em uma iniciativa que, segundo a matéria, teria recebido apoio da Casa Branca.
Os Estados Unidos também estiveram entre os poucos países que não reconheceram oficialmente a vitória de Lula nas eleições brasileiras. Trump chegou a levantar suspeitas de fraude no processo eleitoral, mas não apresentou provas para sustentar a afirmação.
Diante desse histórico, o governo brasileiro tem evitado responder diretamente às declarações do presidente republicano. A estratégia adotada pelo Palácio do Planalto é conter a escalada das divergências, reduzir o risco de novos desgastes e impedir que os conflitos entre Brasil e Estados Unidos sejam explorados politicamente.


