Em julho de 2023, Maya Victoria Cristina Silva, então com 1 ano e 6 meses, apresentou febre e vômitos que, inicialmente, foram interpretados pela família como um quadro viral. A percepção de que se tratava apenas de virose levou a mãe, Larissa Oliveira da Silva, a manter o cuidado em casa, sem buscar atendimento imediato. Porém, a evolução clínica se mostrou mais grave: durante a madrugada, a criança passou a se remexer na cama e não respondia aos chamados. Ao tentar colocá-la sentada, Maya não conseguia se sustentar. A situação abriu espaço para o diagnóstico de meningite meningocócica.
Ligeiramente, a mãe relata que, na primeira avaliação, houve resistência à gravidade do quadro. “Liguei para minha mãe e ela achava que a Maya estava com sono. Na minha cabeça era virose, por isso decidi cuidar dela em casa mesmo”, contou Larissa, que já atuava como ex-monitora de van escolar.
O sinal mais grave surgiu por volta das 6h da manhã, quando a criança começou a convulsionar. Diante da gravidade, Larissa levou Maya ao hospital mais próximo, na região de São Paulo, onde exames confirmaram o diagnóstico de meningite meningocócica do sorogrupo B. “Ali, meu mundo caiu”, confessou a mãe.
A pediatra e sanitarista Melissa Palmieri destacou que os primeiros temores de atraso no diagnóstico decorrem da apresentação clínica inespecífica. “Nas primeiras horas, a doença se confunde com gripe ou virose banal: febre, irritabilidade, recusa alimentar e moleza. O médico na triagem de uma UPA ou pronto-socorro muitas vezes não encontra os sinais clássicos nas primeiras 6 a 12 horas, dificultando o início imediato da antibioticoterapia, que é o divisor de águas entre a vida e a morte”, explicou a especialista, que integra o Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
A meningite meningocócica é causada pela bactéria Neisseria meningitidis, uma infecção das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal. De evolução rápida, a condição pode levar o óbito em menos de 24 horas a partir dos primeiros sintomas, o que a torna uma doença grave de alta criticidade. Palmieri ainda aponta que, mesmo com tratamento adequado, a taxa global de letalidade gira entre 10% e 20%, e cerca de um em cada cinco sobreviventes fica com sequelas graves e permanentes, como surdez, danos cerebrais ou amputação de membros.
A vacinação continua sendo a principal forma de prevenção. A imunização, desde a primeira infância, protege o indivíduo e, ao alcançar alta cobertura, contribui para a imunidade de rebanho, reduzindo a circulação da bactéria. “Adolescentes e jovens adultos são os principais portadores assintomáticos da bactéria na boca e garganta. Eles a transmitem para a comunidade, com risco especial para bebês”, alerta a pediatra.
No sistema público de saúde, as estratégias de vacinação incluem a meningocócica C, destinada a bebês, e a ACWY, para adolescentes de 11 a 14 anos. Quanto ao sorogrupo B, o caso de Maya evidencia uma diferença importante: a vacina está disponível apenas na rede privada. Essa disponibilidade restrita contribui para a persistência de casos causados por essa variação da bactéria, destacando desigualdades no acesso à proteção vacinal.
Após o diagnóstico, Maya foi transferida para um hospital com mais estrutura para atendimento especializado, onde permaneceu internada por aproximadamente três meses, em uma unidade de terapia intensiva (UTI). Durante esse período, a criança enfrentou convulsões, duas paradas cardíacas, insuficiência renal e passou por cirurgia cardíaca. “O que mais me afligiu foi ver ela passar por tudo isso e eu não poder fazer nada. Ver várias crianças saindo do hospital e minha filha, não. Tive medo de perdê-la”, recorda Larissa.
A menina recebeu alta em outubro de 2023, mas voltou para casa com sequelas significativas. Hoje, com quatro anos, Maya ainda realiza tratamentos intensivos para recuperar funções neurológicas e motoras. Entre as limitações remanescentes, estão a perda de visão, dificuldades de fala, locomoção e alimentação. A evolução é lenta, e a família descreve avanços graduais. “Hoje a Maya vem evoluindo: já se alimenta sem a necessidade de sonda gástrica, interage do jeito dela, mas ainda não voltou a andar nem falar. Mas acredito que vai conseguir. O processo não foi fácil e continua sendo desafiador para mim e para a nossa família, pois tudo se reorganizou em uma nova rotina”, relata Larissa.


