Cientistas australianos descobriram uma nova classificação de depressão, denominada depressão circadiana, que afeta aproximadamente 25% dos pacientes com transtorno depressivo severo. A pesquisa, publicada nesta terça-feira (20 de outubro) na revista científica British Journal of Psychiatry, aponta que disfunções no relógio biológico podem contribuir para o agravamento dos sintomas de saúde mental nesses indivíduos.
O estudo, que contou com a participação de 11.380 pessoas diagnosticadas com depressão severa, identificou que 2.604 desses pacientes apresentavam pelo menos três dos seis critérios estabelecidos pelos pesquisadores para caracterizar a depressão circadiana. Entre esses critérios, destacam-se o sono interrompido, baixa energia durante o dia e atividade física reduzida, além de sintomas depressivos mais intensos e início mais precoce da doença em comparação com outros tipos de depressão.
A relação entre o relógio biológico e transtornos de humor já havia sido apontada em estudos anteriores, uma vez que o ciclo circadiano é controlado pelo cérebro e regula funções essenciais, como o sono-vigília, a liberação de hormônios e processos digestivos. Quando esse ciclo se desregula, os indivíduos podem apresentar uma série de problemas, incluindo ganho de peso, dificuldades de concentração e distúrbios do sono.
Segundo Emiliana Tonini, uma das principais pesquisadoras do estudo, os pacientes com depressão circadiana tendem a apresentar quadros clínicos mais graves. “Esses indivíduos têm uma idade de início mais precoce, maior número de episódios, trajetórias mais complexas, além de maior propensão ao suicídio e sintomas de hipomania e psicose”, explicou em comunicado à imprensa.
Além do impacto na saúde mental, os pacientes com esse subtipo de depressão apresentam maior risco genético para Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e outros transtornos de humor. O estudo também revelou uma maior incidência de marcadores inflamatórios e metabólicos nesses indivíduos, o que sugere uma possível ligação com processos inflamatórios e alterações metabólicas associados à condição.
Outro aspecto relevante é que esses pacientes tendem a responder de forma menos eficaz aos tratamentos tradicionais com medicamentos antidepressivos, o que reforça a importância de identificar esse subtipo para direcionar abordagens terapêuticas mais específicas e potencialmente mais eficazes.
Porém, o estudo possui limitações, uma vez que foi realizado com uma amostra composta exclusivamente por pessoas de ascendência europeia, o que aponta para a necessidade de pesquisas futuras que incluam populações mais diversas. Além disso, a investigação não abordou os efeitos hormonais relacionados à menopausa, fatores que também podem influenciar o funcionamento do ciclo circadiano e, consequentemente, a manifestação da depressão.
A descoberta do subtipo circadiano de depressão representa um avanço importante na compreensão de diferentes manifestações da doença, podendo abrir caminho para tratamentos mais personalizados e eficazes. No entanto, os pesquisadores ressaltam que estudos adicionais são essenciais para aprofundar o entendimento sobre essa condição e confirmar suas implicações clínicas em populações mais amplas.


