A Folha de S.Paulo alterou uma reportagem publicada em novembro de 2025 que abordava a atuação do Grupo Fictor, ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, após supostas pressões do próprio Vorcaro, que demonstrou insatisfação com o conteúdo divulgado. A mudança ocorreu sem aviso prévio aos leitores e incluiu a retirada de quatro parágrafos considerados críticos à atuação do grupo, o que gerou questionamentos quanto à transparência do veículo de imprensa.
A matéria original, publicada em 17 de novembro de 2025, tinha como foco o interesse do Grupo Fictor na aquisição do Banco Master e trazia detalhes sobre suas operações financeiras, incluindo a captação de recursos por meio de sociedades ocultas conhecidas como SCPs (sociedade em conta de participação). Segundo o texto, a Fictor estaria envolvida em práticas de financiação do agro e possuía negócios variados, como empresas de marmita e cartões de crédito. A reportagem também apontava que a captação de recursos por SCPs não era supervisionada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), além de identificar 11 dessas sociedades, que somavam um capital social de aproximadamente R$ 1,67 bilhão.
Pouco mais de duas horas após a publicação, o conteúdo foi alterado, e os quatro parágrafos que abordavam as operações suspeitas da Fictor, incluindo as referências às SCPs, foram removidos. A versão atualizada da reportagem, acessada posteriormente, não informa qualquer alteração ou atualização, nem explica a retirada do material considerado relevante. A mudança ocorreu sem aviso aos leitores, contrariando o que estabelece o Manual de Redação da própria Folha, que recomenda transparência na comunicação de atualizações e modificações em textos jornalísticos.
A controvérsia veio à tona em meio a investigações mais amplas sobre o Grupo Fictor, que entrou com pedido de recuperação judicial em fevereiro de 2025, com um passivo de R$ 4,2 bilhões e mais de 13 mil credores, em sua maioria pessoas físicas. Em agosto do mesmo ano, a Justiça de São Paulo declarou nulos contratos de SCPs envolvendo o grupo, apontando que essas operações sustentavam um esquema considerado criminoso, o que reforçou as suspeitas levantadas na reportagem original.
A própria ombudsman da Folha de S.Paulo, ao analisar o caso, afirmou que o jornal foi “generoso” com a Fictor antes das ações da Polícia Federal, que resultaram na prisão de Vorcaro. Ela criticou o tom excessivamente benevolente do perfil publicado, que descrevia o grupo com base em informações do próprio site da empresa, sem refletir os aspectos mais controversos de suas operações financeiras e legais.
A relação do banqueiro Daniel Vorcaro com a imprensa também foi alvo de revelações recentes. Segundo o portal Metrópoles, Vorcaro pagou R$ 1 milhão a um gestor de crise para interferir na cobertura jornalística sobre sua pessoa, influenciando o conteúdo de reportagens na Folha de S.Paulo. O veículo teria, inclusive, segurado uma matéria por pelo menos 22 dias, além de editar o texto após sua prisão, removendo parágrafos favoráveis ao banqueiro e inserindo informações contrárias.
Ao ser questionada sobre as mudanças, a Folha de S.Paulo afirmou que a edição da reportagem ocorreu por necessidade de incluir informações adicionais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), justificando a retirada dos parágrafos como uma atualização para melhor contextualizar o perfil do grupo. A redação também negou qualquer solicitação de remoção por parte do Grupo Fictor ou de terceiros, alegando que as alterações não alteraram o objetivo principal do texto.
O Grupo Fictor, por sua vez, declarou que não teve participação nas decisões editoriais da Folha relativas à matéria e rejeitou qualquer envolvimento em ações que possam comprometer sua reputação ou a integridade da imprensa. A empresa reiterou que não mantinha parceria operacional com o Banco Master e que as negociações para aquisição não foram concretizadas, além de afirmar que não participou de qualquer esquema ilícito.
Este episódio evidencia os desafios enfrentados pela imprensa na cobertura de casos complexos envolvendo figuras do setor financeiro e grupos empresariais com ligações suspeitas, além de levantar questões sobre a transparência e a ética na edição de notícias em veículos tradicionais.


