Pesquisadores do Rush University Medical Center, nos Estados Unidos, publicaram uma investigação que aponta a circulação de partículas metálicas provenientes de próteses articulares no cérebro humano. O estudo, divulgado em junho na revista científica Acta Biomaterialia, analisou a possibilidade de fragmentos liberados pelo desgaste de implantes se deslocarem pelo organismo e atingirem o cérebro, além de avaliar possíveis efeitos neurológicos associados a essa presença.
A pesquisa envolveu a análise de cérebros de 701 indivíduos após a morte, dos quais 229 haviam passado por cirurgias de substituição total de articulações, como quadril, joelho ou ombro. Os cientistas mediram os níveis de metais, incluindo cobalto e titânio, em quatro regiões cerebrais distintas dessas amostras. Técnicas avançadas de microscopia permitiram identificar partículas metálicas compatíveis com as componentes das próteses, indicando sua origem nos implantes.
Segundo os autores, o desgaste causado pelo atrito e a corrosão ao longo do tempo podem liberar esses resíduos metálicos, que, sob certas condições, podem atravessar a barreira hematoencefálica. Essa barreira, que normalmente protege o cérebro de substâncias potencialmente nocivas, pode tornar-se mais vulnerável devido a processos inflamatórios ou ao envelhecimento. Uma hipótese considerada é que essas partículas possam ser transportadas por células do sistema imunológico, facilitando sua entrada no tecido cerebral.
No caso específico de pacientes com próteses de quadril, a análise revelou que a concentração média de cobalto no cérebro foi aproximadamente 8,9% maior em comparação com indivíduos que não passaram por esse procedimento cirúrgico. A pesquisa também investigou sinais relacionados à doença de Alzheimer, como o acúmulo de proteínas beta-amiloide e tau. Observou-se que cérebros com níveis mais elevados de cobalto apresentaram maior presença dessas alterações em uma das regiões estudadas.
Apesar desses achados, os resultados não indicaram uma relação direta entre a presença dos metais e uma deterioração cognitiva ao longo da vida dos participantes. Quanto ao titânio, níveis mais altos foram associados a escores cognitivos mais baixos, embora os autores ressaltem que esse metal pode ter origens diversas, incluindo alimentos e medicamentos, além das próteses.
Os pesquisadores destacam que a análise foi realizada em tecidos cerebrais de indivíduos falecidos, o que limita a capacidade de estabelecer relações de causa e efeito. Além disso, reconhecem que diversos fatores podem influenciar tanto a presença de metais quanto a saúde neurológica, tornando complexa a interpretação dos resultados.
Por fim, a equipe reforça que a cirurgia de substituição articular costuma melhorar a mobilidade e a interação social, fatores que estão ligados à redução do risco de demência. Os resultados do estudo evidenciam a necessidade de monitoramento mais aprofundado dos efeitos de longo prazo do desgaste de implantes no organismo e sugerem que futuras pesquisas devem esclarecer de que forma essas partículas circulam pelo corpo e qual o impacto clínico dessa circulação no cérebro humano.


