O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), hoje candidato à Presidência da República, voltou a acender a polêmica ao empregar a expressão “alforria” durante a fala realizada neste domingo (26/7). O termo, historicamente associado à liberdade concedida aos escravizados, foi utilizado por Caiado para representar, em suas palavras, uma “libertação” para o conjunto da população baiana, em referência à relação entre seu eventual governo, ao lado de ACM Neto, e o estado.
A apresentação pública ocorreu em São Paulo, durante a convenção do PSD que oficializou Gilberto Kassab como vice na chapa de Caiado. Antes do ato, Caiado concedeu uma entrevista coletiva e foi questionado por um jornalista baiano sobre a atuação política no estado. Na Bahia, a disputa pelo governo tem como protagonistas Jerônimo Rodrigues (PT), atual governador, e ACM Neto (União), ex-prefeito de Salvador. Neto, que tem proximidade com Flávio Bolsonaro (PL), declarou apoio à candidatura de Caiado. Em meio à conjuntura local, Caiado comentou: “Com Caiado e ACM eleitos, o povo baiano vai se sentir alforriado”, ressaltando que o arranjo político no estado seria um “respiro” para a Bahia, onde estima-se que cerca de 80% da população se identifique como negra.
O tom de polêmica não é novo para o presidenciável: no início de julho, Caiado já havia utilizado a mesma palavra ao afirmar que, se eleito, pretende “alforriar” as favelas do Rio de Janeiro. O uso de tal linguagem intensifica a leitura de Caiado como um articulador de uma linha de discurso que busca mobilizar eleitores que não se identificam com Lula (PT) nem com Flávio Bolsonaro, que já formalizou a candidatura na semana anterior.
A convenção do PSD ocorre em um momento estratégico para Caiado, que tenta consolidar sua posição na chamada terceira via, na esteira de uma disputa na qual Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) aparecem à frente nas pesquisas. Nos últimos dias, o candidato tem dirigido críticas mais duras aos seus adversários, buscando ocupar o espaço de oposição a um cenário de vantagem para os rivais. Na sexta-feira (24/7), Caiado provocou Lula em tom de desafio, sugerindo que o atual presidente tenta evitar os debates. Em publicação nas redes sociais, ele desafiou o petista a debater temas como segurança, saúde, educação e inovação, conclamando: “Coragem, Lula. Quem quer governar o Brasil não foge do confronto nem das próprias contas. Te espero lá”.
No dia anterior, Caiado já havia comentado de forma irônica a reaproximação entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, que havia se desentendido publicamente após uma suposta desrespeito à ex-primeira-dama. O ex-governador também criticou o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro por ataques às urnas eletrônicas, lembrando o escândalo envolvendo o Banco Master e a ligação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Em sua leitura, o candidato do PSD teria ficado sem credenciais para disputar o Planalto.
A definição de Kassab como vice veio acompanhada pela garantia de que o senador sírio Kassab representa um perfil de “antagonismo” dentro da chapa, destoando de um ambiente que, segundo a leitura de Caiado, tende a privilegiar acordos com o governo federal. O líder do PSD e presidente da sigla, Gilberto Kassab, assume a posição de vice na chapa “puro-sangue”, na avaliação da equipe de Caiado. Mesmo com o PSD ocupando cargos de within no governo Lula — incluindo o Ministério da Agricultura e Pecuária, chefiado pelo pernambucano André de Paula —, Kassab prometeu uma postura de oposição mais firme aos rivais, o que, segundo a leitura do time do presidenciável goiano, pode facilitar a articulação política no Congresso Nacional.
A estratégia de Caiado, segundo a avaliação de sua equipe, é que a presença de Kassab na vice-presidência possa ampliar a base de apoio no Legislativo e, assim, fortalecer as condições de governabilidade de uma eventual gestão. O objetivo é atrair parlamentares de diversos blocos, especialmente do Centrão, que historicamente têm papel decisivo na formação de maioria — ou na sustentação de um governo — no Congresso. O PSD, nesse cenário, tenta manter um espaço de protagonismo sem abrir mão de cargos relevantes no espaço político de sustentação ao governo federal, algo que se observa no governo Lula com pastas como a Agricultura.
Em síntese, a fala de Caiado, a escolha de Kassab como vice e a consolidação de uma via de centro — a chamada terceira via — compõem uma narrativa de tentativa de reorganização do voto periférico e de desvinculação de alianças que históricamente favoreceram os favoritos do momento. Resta aos observadores acompanhar como as declarações de Caiado repercutem entre eleitores baianos, especialmente aqueles que podem ser sensíveis a alusões históricas de liberdade e a promessas de mudanças estruturais no front interno do país, incluindo debates sobre governabilidade, alianças no Congresso e o papel da oposição diante de um cenário político que permanece polarizado.


