Mesmo pessoas que passaram anos consumindo certos alimentos ou usando determinados produtos sem apresentar qualquer reação podem desenvolver alergias na fase adulta. O quadro surge quando o sistema imunológico deixa de tolerar uma substância e passa a reconhecê-la como uma ameaça. Por esse motivo, a reação não precisa ocorrer necessariamente no primeiro contato com o agente desencadeador.
De acordo com a médica alergista e imunologista Fernanda América, o organismo costuma manter uma relação de equilíbrio com diversas substâncias presentes no ambiente e na alimentação. Essa tolerância pode ser alterada por uma combinação de fatores, como predisposição genética, mudanças nas mucosas, variações hormonais, infecções e novas exposições ambientais.
Nas reações alérgicas imediatas, o corpo produz anticorpos chamados imunoglobulina E, ou IgE. Em uma exposição posterior, essas moléculas ativam células que liberam histamina e outros mediadores inflamatórios. Como consequência, podem surgir coceira, urticária, inchaço, vômitos e dificuldade para respirar. Quando o quadro evolui para anafilaxia, há uma emergência médica que requer atendimento imediato.
Alterações na microbiota podem interferir na tolerância imunológica
A microbiota intestinal tem participação na regulação das defesas do organismo e na preservação da barreira intestinal. A composição desse conjunto de microrganismos pode ser modificada pelo uso de antibióticos e outros medicamentos, por uma alimentação pouco variada, infecções, doenças, estresse, sono inadequado e mudanças ambientais.
Segundo a médica dermatologista Carolina Malavassi, integrante da plataforma INKI, essas alterações podem, em teoria, favorecer um ambiente mais inflamatório ou diminuir a tolerância do sistema imunológico. A especialista ressalta, porém, que ainda não existe confirmação de que uma alteração específica da microbiota seja, isoladamente, capaz de provocar uma alergia iniciada na vida adulta.
As evidências disponíveis apontam principalmente associações, e boa parte das pesquisas foi realizada com crianças. Por isso, a microbiota deve ser considerada apenas como um possível componente entre vários. A avaliação também precisa levar em conta fatores genéticos e ambientais, as condições da pele e das mucosas, o uso de medicamentos e o tipo de reação apresentado pelo paciente.
Substâncias presentes no trabalho podem provocar dermatite
A rotina profissional pode aumentar o contato com materiais capazes de desencadear reações alérgicas. Metais, conservantes, fragrâncias, resinas epóxi e acrílicas, borracha, luvas, cosméticos, produtos de limpeza e tinturas estão entre os possíveis agentes. A exposição também pode ocorrer em atividades ligadas à indústria, à área da saúde, à construção civil e à agricultura.
Calor, umidade, uso prolongado de luvas e a presença de pele já inflamada ou com fissuras podem elevar a vulnerabilidade. Diante da suspeita de dermatite alérgica, é importante verificar se os sintomas coincidem com tarefas ou materiais utilizados no trabalho. O teste de contato pode contribuir para a identificação das substâncias responsáveis pela reação.
Carolina Malavassi explica que o tratamento não deve se limitar à aplicação de pomadas. É preciso diminuir ou interromper, quando possível, o contato com o agente causador e adotar medidas de proteção apropriadas. Sem essas providências, a dermatite pode persistir, tornar-se crônica e comprometer a continuidade das atividades profissionais.
Exames devem ser solicitados conforme a suspeita clínica
Em adultos, frutos do mar, castanhas, amendoim e alguns medicamentos estão entre os principais desencadeadores de anafilaxia. A investigação pode incluir exames como o teste de puntura e o teste de contato, selecionados de acordo com os sinais apresentados e com a hipótese levantada pelo médico.
Fernanda América alerta que testar indiscriminadamente um grande número de substâncias, sem uma suspeita clínica definida, pode gerar resultados positivos que não representam uma alergia verdadeira. A consequência pode ser a adoção de restrições alimentares ou mudanças desnecessárias na rotina. O diagnóstico deve reunir o histórico do paciente, os sintomas e a relação temporal entre a exposição e o aparecimento da reação.
Quando não são reconhecidas e controladas, as alergias podem afetar o sono, a produtividade e a convivência social. Em situações de anafilaxia, a administração imediata de adrenalina por via intramuscular e a procura urgente por atendimento médico são medidas essenciais.
Nem todos os quadros desenvolvidos na maturidade podem ser revertidos. Ainda assim, a evitação do agente causador, quando orientada por um profissional, e tratamentos como a imunoterapia podem contribuir para controlar os sintomas e reduzir os efeitos da alergia sobre a rotina.


