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Dor persistente atinge quase metade das mulheres após cirurgia para câncer de mama

Dor persistente atinge quase metade das mulheres após cirurgia para câncer de mama

Quase metade das mulheres submetidas a cirurgia para tratar o câncer de mama desenvolve dor crônica após o procedimento, segundo uma metanálise que reuniu dados de aproximadamente 300 mil pacientes. Em cerca de uma a cada quatro mulheres, os sintomas apresentam intensidade moderada ou grave e podem permanecer na parede do tórax, nos ombros e na região das axilas, mesmo depois do término do tratamento.

A conclusão mostra que a remissão do câncer não elimina necessariamente os efeitos físicos provocados pelas diferentes etapas da terapia. Cirurgia, radioterapia e quimioterapia podem deixar sequelas que afetam a mobilidade, a execução de tarefas cotidianas e a qualidade de vida. Em alguns casos, o desconforto continua mesmo após a cicatrização aparente da área operada.

Uma das explicações está nas lesões causadas durante a retirada do tumor. Nervos periféricos localizados no tórax e na axila podem ser seccionados, comprimidos ou sofrer outros tipos de trauma ao longo da intervenção. Esse comprometimento pode levar à neuralgia intercostobraquial, condição associada à dor persistente na região da cirurgia.

A extensão do procedimento também influencia o risco. Mulheres submetidas à retirada de uma quantidade maior de linfonodos apresentam maior frequência de dor contínua. A radioterapia pode dificultar a recuperação dos tecidos ao favorecer a formação de fibrose, processo que provoca o endurecimento de músculos e de outras estruturas. Já alguns medicamentos usados na quimioterapia podem causar danos aos nervos responsáveis pela sensibilidade.

De acordo com o médico ortopedista e especialista em dor da Rede Cade, Lúcio Gusmão, a dor crônica pós-mastectomia resulta da combinação de diferentes mecanismos. Mesmo quando os tecidos já se recuperaram, o sistema nervoso pode continuar reagindo de forma exagerada aos estímulos. “O tumor foi tratado, mas o ‘terreno’ ficou modificado. A dor crônica pós-mastectomia é multifatorial e combina lesão de nervos periféricos, sensibilização do sistema nervoso central e inflamação”, afirma.

Sintomas se concentram no tórax, nos ombros e nas axilas

A dor costuma aparecer principalmente na parte frontal do tórax, nos ombros e nas axilas. Outra ocorrência possível é a costocondrite, inflamação benigna da cartilagem que conecta as costelas ao esterno. O quadro pode provocar dor ao respirar ou durante determinados movimentos. Por surgir na região do peito, também pode causar preocupação nas pacientes, que podem temer uma eventual volta da doença.

A obesidade está entre os fatores relacionados à persistência dos sintomas. Acompanhamentos de longo prazo indicam que mulheres com obesidade apresentam uma incidência de dor crônica cerca de 80% maior. O excesso de gordura corporal estimula a liberação de substâncias inflamatórias, capazes de aumentar a sensibilidade dos nervos e contribuir para a continuidade do desconforto.

A falta de atividade física também pode intensificar as limitações. Quando a paciente reduz os movimentos por receio da dor, a musculatura do tronco tende a perder força e flexibilidade, enquanto os ombros podem ficar mais rígidos. A menor movimentação ainda reduz a liberação natural de substâncias produzidas pelo organismo que têm efeito analgésico durante a prática de exercícios.

Consequências alcançam a saúde mental e a rotina

As repercussões não se limitam ao corpo. A dor e as restrições de movimento podem afetar a autoimagem, a saúde mental, o retorno ao trabalho e a convivência familiar. O linfedema, caracterizado pelo inchaço decorrente do acúmulo de líquido nos braços após a retirada dos linfonodos, pode provocar dificuldades funcionais e constrangimento social.

A necessidade de lidar diariamente com limitações e desconforto pode favorecer ansiedade, desânimo e frustração. Esse sofrimento emocional pode, por sua vez, ampliar a forma como o cérebro processa os sinais dolorosos, criando um ciclo em que o estresse contribui para a piora da percepção da dor.

A avaliação médica é importante para distinguir os efeitos persistentes do tratamento de possíveis sinais de recidiva do câncer. Depois que uma lesão ativa é descartada, o cuidado pode combinar acompanhamento médico, exercícios, fisioterapia e suporte psicológico.

Entre as opções terapêuticas estão procedimentos intervencionistas, como bloqueios nervosos guiados por ultrassom na região do tórax e aplicações de radiofrequência. As técnicas podem interromper temporariamente o circuito da dor e oferecer um período de alívio. Para Gusmão, esse intervalo é mais útil quando permite que a paciente volte a se movimentar e participe do processo de reabilitação.

A fisioterapia pode incluir alongamentos progressivos da musculatura peitoral, exercícios para ampliar a mobilidade e fortalecimento orientado. O tratamento também deve considerar o impacto emocional e oferecer informações sobre os mecanismos da dor. Segundo o fisioterapeuta Natan Boan, da Rede Cade, é necessário acolher a paciente e orientar sem minimizar as queixas.

“Entender a própria dor reduz o medo e devolve à paciente a sensação de controle”, diz Boan. A retomada das atividades deve ocorrer gradualmente, começando por tarefas simples e avançando conforme a recuperação. A estratégia busca reconstruir, de forma progressiva, a autonomia física e emocional após o tratamento do câncer de mama.

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