O jogador espanhol Jesús de Miguel, do Tenerife, morreu nesta terça-feira (3/11), aos 30 anos, após sofrer uma parada cardiorrespiratória durante a partida contra o FC Andorra, pela segunda divisão do Campeonato Espanhol. O atacante se chocou com o goleiro adversário, Owono, nos minutos finais do confronto disputado na segunda-feira (2/11).
De Miguel recebeu atendimento ainda no gramado e foi reanimado antes de ser levado em estado grave ao Hospital Universitário Nuestra Señora de Candelaria. Após o episódio, a partida foi encerrada. Durante a internação, o jogador apresentou uma piora neurológica e não resistiu.
De acordo com o cardiologista Cristiano Faria Pisani, especialista em eletrofisiologia e presidente da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas, uma pancada forte na região do peito pode alterar a atividade elétrica do coração e provocar uma parada cardíaca. O risco, segundo o médico, existe mesmo em pessoas que não têm histórico de doenças cardiológicas.
Impacto no esterno pode desencadear arritmia grave
Ao analisar a dinâmica do lance, Pisani apontou o commotio cordis como uma possível explicação para o episódio. Trata-se de uma alteração rara e grave do ritmo cardíaco, causada por um impacto contundente diretamente no centro do peito.
Segundo a descrição do especialista, De Miguel corria em velocidade enquanto o goleiro se deslocava no sentido contrário. Nesse movimento, o joelho de Owono atingiu o peito do atacante, na região do esterno, osso localizado no centro do tórax.
“Quando o impacto acontece nessa região do esterno, pode provocar uma condição que chamamos de commotio cordis”, explicou o cardiologista.
O coração mantém seus batimentos por meio de um sistema elétrico responsável por coordenar a contração do órgão. Uma pancada no peito pode produzir estímulos capazes de interferir nesse funcionamento. No entanto, o problema não ocorre necessariamente em qualquer momento do ciclo cardíaco.
Existe uma fase muito específica em que o coração fica mais vulnerável à interferência externa. Se o impacto coincidir com esse período, os estímulos provocados pela pancada podem desorganizar a atividade elétrica do órgão e desencadear uma fibrilação ventricular. Essa arritmia impede que o coração bombeie o sangue de maneira eficiente e pode evoluir para uma parada cardíaca.
Por isso, o commotio cordis depende da combinação entre a região atingida e o momento exato do batimento cardíaco. Não é qualquer choque no peito que causa a condição, mas uma pancada aplicada em uma área sensível e durante uma janela específica do ciclo elétrico do coração.
Condição também pode ocorrer sem doença cardíaca anterior
Pisani afirmou que o commotio cordis é raro e já foi registrado em outras modalidades esportivas. Um dos exemplos citados pelo médico envolve o beisebol, em casos nos quais uma bolada atinge diretamente o peito do atleta.
A existência de um coração previamente saudável, portanto, não impede que a alteração aconteça. “É uma fatalidade, uma situação muito triste, mas que pode acontecer até mesmo em pessoas que não apresentam nenhum problema cardiológico preexistente”, afirmou o cardiologista.
O especialista também destacou a importância da desfibrilação no atendimento de episódios desse tipo. O procedimento pode ser utilizado para tentar interromper a arritmia e restabelecer um ritmo cardíaco adequado. Como exemplo, ele mencionou um caso ocorrido durante uma partida de futebol americano nos Estados Unidos, em que um atleta recebeu a desfibrilação depois de sofrer um impacto na região do esterno e, segundo o relato do médico, se recuperou sem sequelas.


