Menos de uma semana após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no último domingo (25/10), o mercado financeiro já avalia possíveis nomes para assumir o Ministério da Fazenda, uma das principais pastas da Esplanada dos Ministérios. A definição será acompanhada de perto diante da pressão por um ajuste nas contas públicas, pela necessidade de reorganizar o orçamento e pelos compromissos assumidos pelo presidente durante a campanha eleitoral.
Atualmente, o ministério é comandado por Dario Durigan, que assumiu a função no início do ano, depois que Fernando Haddad deixou o cargo para concorrer ao governo de São Paulo. Para o quarto governo de Lula, a escolha do titular da Fazenda é considerada estratégica, especialmente em razão das medidas anunciadas durante a campanha e da preocupação do mercado com a trajetória fiscal do país.
O próximo ministro deverá atuar sob pressão ainda maior do que Haddad, que havia assumido a pasta após a gestão de Paulo Guedes, ministro da Economia durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Na ocasião, Haddad teve entre suas tarefas o reequilíbrio das contas públicas. Agora, além de promover ajustes no orçamento, o novo chefe da Fazenda precisará transmitir credibilidade fiscal ao mercado e, ao mesmo tempo, preservar os compromissos políticos firmados por Lula.
O escritor e consultor de risco Thomas Traumann já classificou o cargo como “o pior emprego do mundo” em um livro. Entre os nomes analisados pelo governo está o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), que ganhou protagonismo durante o segundo turno da campanha presidencial ao se aproximar de Lula.
O Piauí tem relevância histórica para o presidente por registrar uma tradição de votação expressiva no petista. Em 2022, quando Lula voltou ao poder, o apoio no Estado foi articulado por Wellington Dias, então governador. Ele foi eleito senador e, posteriormente, convidado para comandar o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, cargo que ainda ocupa.
Além da proximidade com Lula, Fonteles tem formação em matemática pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e foi um dos nomes mais premiados de sua graduação. Antes de chegar ao governo estadual, também ocupou o cargo de secretário de Fazenda e presidiu o Comitê Nacional dos Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz).
Apesar de ser considerado preparado e capaz de agradar tanto ao governo quanto ao mercado, Fonteles tem declarado em entrevistas que não discutiu a possibilidade com o presidente. Outro fator que pesa contra sua indicação é o fato de ele ter sido reeleito governador no primeiro turno, com 70,90% dos votos, maior percentual obtido por um governador brasileiro. Interlocutores avaliam que deixar o comando do Estado para assumir um ministério seria uma decisão de risco.
Dario Durigan é considerado um nome de continuidade
O atual ministro, Dario Durigan, também está entre os cotados. Ele é visto como um aliado leal a Lula, com boa interlocução junto ao mercado financeiro e experiência na condução de temas relevantes da equipe econômica. Durigan, no entanto, afirmou que ainda não conversou com o presidente sobre o futuro da Fazenda.
Em declarações recentes, o ministro classificou Rafael Fonteles como um “excelente nome” para assumir a pasta. Durigan já trabalhou na Advocacia-Geral da União (AGU), ocupou diferentes funções na administração pública e também atuou no setor privado como diretor de políticas públicas do WhatsApp. Durante a maior parte do terceiro governo de Lula, foi secretário-executivo da Fazenda, na condição de número dois de Haddad.
Entre as ações realizadas durante sua gestão estão a edição da medida provisória que proibiu a atuação das casas de apostas online, conhecidas como bets, no Brasil. Ele também participou de anúncios relacionados aos programas Desenrola e Desenrola Mei.
Bruno Moretti tem perfil técnico e trânsito político
Outro nome avaliado é o de Bruno Moretti, atual ministro do Planejamento e Orçamento. Antes de ocupar a pasta, ele trabalhou na Casa Civil e integrou o conselho da Petrobras. Economista formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Moretti é servidor da carreira do Ministério do Planejamento e Orçamento desde 2004.
O ministro é reconhecido pelo perfil técnico e pelo bom trânsito no Congresso Nacional e no mercado financeiro. Ele participou da articulação de pautas consideradas relevantes, entre elas a retirada dos pisos mínimos de saúde e educação do cálculo das receitas. A medida pode reduzir as despesas do governo em aproximadamente R$ 10 bilhões.
Com a mudança, o governo não precisará elevar os valores destinados aos pisos de saúde e educação em razão do aumento da arrecadação com petróleo provocado pela guerra no Oriente Médio.
Geraldo Alckmin também aparece entre as possibilidades
O vice-presidente Geraldo Alckmin também é mencionado como uma alternativa para o comando da Fazenda. Durante grande parte do terceiro governo de Lula, ele ocupou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).
O nome de Alckmin é bem avaliado pelo mercado, que considera seu perfil técnico e sua atenção à organização das contas públicas. A principal dificuldade seria a disponibilidade exigida pelo cargo. Como foi reeleito na chapa de Lula, o vice-presidente deverá se dedicar às demandas próprias da função e, por isso, poderia ter menos tempo para manter conversas frequentes com o mercado financeiro e com o Congresso Nacional.
Apesar dessa ressalva, a atuação de Alckmin nas negociações sobre tarifas com os Estados Unidos fez com que seu nome ganhasse força entre as opções consideradas para comandar o Ministério da Fazenda.


