Pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, descobriram como a toxina produzida por determinadas variedades da bactéria Bacteroides fragilis consegue se ligar às células do intestino e causar danos ao revestimento do cólon. O mecanismo pode ajudar a explicar de que maneira algumas bactérias intestinais contribuem para o desenvolvimento de tumores colorretais. O estudo foi publicado em 22 de abril na revista científica Nature.
A equipe identificou que a toxina BFT usa uma proteína chamada claudina-4 para se conectar às células intestinais. A partir dessa descoberta, os cientistas desenvolveram uma proteína artificial capaz de atuar como uma “isca”, atraindo a toxina antes que ela alcance o tecido do cólon. Em experimentos realizados com camundongos, a estratégia protegeu o intestino contra os danos provocados pela substância.
Apesar do resultado, os pesquisadores ressaltam que a técnica ainda está em fase inicial. Os testes demonstraram proteção do tecido intestinal em animais, mas não comprovaram que o método seja capaz de prevenir o câncer colorretal em seres humanos. Também não há previsão de quando a abordagem poderá ser testada clinicamente.
Bactéria pode estar presente em pessoas saudáveis
A Bacteroides fragilis pode ser encontrada no intestino de até 20% das pessoas saudáveis. A presença da bactéria, isoladamente, não significa que a pessoa desenvolverá câncer. A preocupação está concentrada em determinadas variedades capazes de produzir a toxina BFT.
Essa substância pode danificar a E-caderina, uma proteína que ajuda a manter unidas as células do intestino e contribui para a preservação da barreira protetora do cólon. Quando essa estrutura é comprometida, podem ocorrer inflamações e alterações no tecido intestinal. Essas mudanças podem favorecer o crescimento de tumores.
A relação entre a toxina BFT e o câncer colorretal é investigada pelos cientistas desde 2009. Até então, permanecia a dúvida sobre como a substância conseguia alcançar a E-caderina. O novo estudo apontou que a claudina-4 participa da etapa inicial desse processo ao permitir a ligação da toxina com as células do cólon.
Proteína artificial bloqueou ação da toxina em camundongos
Para identificar o receptor utilizado pela BFT, os pesquisadores recorreram à tecnologia CRISPR, que permite desativar genes e observar as consequências nas células. Ao retirar o gene responsável pela produção da claudina-4, os cientistas verificaram que a toxina deixou de conseguir se prender às células do cólon.
Com base nesse resultado, a equipe criou uma proteína solúvel formada por partes da claudina-4. A proposta era fazer com que a BFT se ligasse à proteína artificial, em vez de alcançar as células intestinais. Nos testes com camundongos, a estratégia interceptou a toxina e reduziu os danos provocados no tecido.
Os cientistas ainda precisam compreender com mais precisão como a BFT e a claudina-4 se encaixam em nível molecular. Esse conhecimento pode contribuir para o desenvolvimento de substâncias capazes de bloquear essa ligação de maneira mais eficiente. A equipe também pretende estudar como transformar a proteína usada como isca em uma alternativa que possa, futuramente, ser avaliada em pessoas.
Sinais que devem ser investigados
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer é um dos principais problemas de saúde pública no mundo e está entre as quatro principais causas de morte antes dos 70 anos em diversos países. A identificação precoce aumenta as possibilidades de recuperação, embora alguns tumores não provoquem sintomas nas fases iniciais.
Entre os sinais que podem exigir investigação médica estão a perda de peso sem causa aparente e mudanças persistentes na textura da pele, especialmente quando há inchaços ou caroços no seio, pescoço, virilha, testículos, axila ou estômago.
Tosse persistente por mais de quatro semanas também deve ser avaliada, principalmente se vier acompanhada de falta de ar ou presença de sangue. Alterações no tamanho, na cor ou no formato de pintas, além de descamação, sangramento ou saída de líquido, são outros sinais que precisam de atenção.
Sangue nas fezes ou na urina pode estar relacionado a tumores nos rins, na bexiga ou no intestino. Dor e dificuldade para urinar também devem ser investigadas. Dores sem explicação que permaneçam por mais de quatro semanas, de forma contínua ou intermitente, podem ocorrer quando tumores pressionam ossos, nervos ou outros órgãos.
Azia intensa e recorrente, acompanhada de dor e que não desaparece, além de dificuldade ou dor para engolir, também requer avaliação, pois pode estar relacionada a doenças como câncer de garganta, estômago ou esôfago. Os autores do estudo afirmam que a descoberta ajuda a esclarecer uma etapa pela qual determinadas bactérias intestinais podem contribuir para doenças. Além do câncer colorretal, eles investigam possíveis relações da toxina com diarreia e infecções na corrente sanguínea.


