A escolha dos candidatos a vice-presidente nas chapas presidenciais de 2026 tem sido uma estratégia fundamental na disputa eleitoral, visando ampliar o alcance de votos e consolidar alianças políticas. No cenário atual, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manteve a parceria com Geraldo Alckmin (PSB), reforçando uma aliança que busca sinalizar ao centro político e ao mercado financeiro uma postura de estabilidade e governabilidade. Essa decisão faz parte de uma tática de ampliar a base de apoio, especialmente após a vitória de Lula em 2022, onde Alckmin desempenhou papel central na formação de uma frente ampla de apoio ao então candidato à reeleição.
Desde 31 de março, durante a primeira reunião ministerial do ano, Alckmin foi confirmado como vice-presidente na chapa de Lula, marcando a continuidade de sua participação na política nacional. Em 2022, ele integrou a estratégia de uma frente ampla criada pelo PT para vencer Jair Bolsonaro (PL), atuando também como ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Nesse cargo, destacou-se ao liderar negociações com o governo dos Estados Unidos para reverter tarifas comerciais impostas durante a administração Trump, demonstrando sua experiência na condução de negociações internacionais e sua capacidade de atuar em temas econômicos relevantes.
Além de sua atuação no governo, Alckmin foi designado pela equipe de campanha para contestar propostas econômicas do adversário, especialmente o projeto de Flávio Bolsonaro (PL) de cortar quase R$ 200 bilhões do orçamento federal. Nas redes sociais, o vice-presidente questionou a origem das economias prometidas por Flávio e alertou para possíveis impactos setoriais, além de citar a experiência da Argentina, governada por Javier Milei, como exemplo de políticas de ajuste fiscal que geraram controvérsia no cenário internacional.
A aliança entre Lula e Alckmin é vista por especialistas como uma estratégia de ampliar a previsibilidade do mercado e aproximar o ex-presidente de setores mais ao centro e à direita. A cientista política Carolina Venuto destaca que essa parceria ajudou a consolidar uma base de apoio mais ampla e a transmitir maior estabilidade política, dado o histórico de diferenças políticas entre ambos. Segundo ela, a experiência de Alckmin, que já governou São Paulo, além de sua interlocução com setores empresariais, reforça seu papel na campanha de Lula.
Por outro lado, na chapa de Flávio Bolsonaro, a escolha de Alfredo Gaspar como vice ocorreu em agosto, após uma filiação ao PL em março. Gaspar possui carreira ligada ao Ministério Público e à segurança pública, temas considerados prioritários na campanha do bolsonarismo. Sua nomeação visa ampliar o eleitorado na região Nordeste, onde a pauta de segurança pública é especialmente relevante, além de fortalecer o discurso do candidato na área.
Gaspar também atuou como relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigou fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), tendo apresentado relatório que solicitava o indiciamento de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Lula. Apesar disso, o relatório foi rejeitado, mas a nomeação de Gaspar reforça a estratégia de fortalecer a presença bolsonarista na região Nordeste, onde o discurso de segurança é primordial.
Especialistas avaliam que a influência do vice na decisão do eleitor é limitada, com a maioria votando no candidato principal sem considerar detalhadamente o nome do vice. Gustavo Ribeiro destaca que, em 2022, o valor simbólico de Alckmin foi maior do que seu impacto eleitoral direto, embora sua presença tenha sinalizado ao mercado e aos setores mais moderados uma frente ampla de apoio a Lula. Para André Rosa, a função do vice em ambas as chapas é distinta: enquanto Alckmin busca captar eleitores de centro e de setores empresariais, Gaspar atua para ampliar a base bolsonarista, especialmente na região Nordeste, reforçando o discurso de segurança pública.
A análise indica que, embora os vices tenham papel importante na estratégia de campanha, sua influência direta na decisão do eleitor costuma ser limitada, servindo mais como instrumentos de fortalecimento de alianças e ampliação de apoios específicos. A escolha de candidatos a vice em 2026 reflete, assim, uma combinação de objetivos políticos e econômicos, com foco na consolidação de bases eleitorais distintas e na transmissão de sinais de estabilidade e continuidade às diferentes frentes de apoio.


