O crescimento das queimadas, especialmente durante períodos de estiagem, aumenta significativamente a presença de fumaça no ar, elevando os riscos à saúde pública. A queima de cobertura vegetal e materiais orgânicos durante períodos de seca resulta na emissão de partículas finas (PM2,5) capazes de ultrapassar as vias respiratórias superiores, atingir os alvéolos pulmonares e, posteriormente, ingressar na circulação sanguínea, desencadeando processos inflamatórios que podem afetar diversos órgãos do corpo humano.
Esse fenômeno, que ocorre com maior intensidade em regiões afetadas por incêndios florestais e queima de resíduos agrícolas, eleva a concentração de poluentes atmosféricos, exigindo medidas de proteção individual. Entre os componentes mais preocupantes da fumaça estão o material particulado fino, especialmente o PM2,5, além de monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio e diversos compostos orgânicos voláteis. Segundo o pneumologista Marcelo Macchione, partículas menores têm maior capacidade de alcançar regiões profundas dos pulmões, incluindo os alvéolos, podendo afetar também a circulação sanguínea e outros órgãos do organismo.
A vulnerabilidade a esses efeitos é maior em grupos específicos, como crianças, idosos, gestantes e indivíduos com doenças cardiovasculares ou respiratórias crônicas, como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). A anatomia do aparelho respiratório infantil, associada a uma maior frequência ventilatória, favorece a maior absorção de poluentes por quilo de peso. Nos idosos, a menor reserva funcional dos órgãos acelera o risco de descompensações clínicas em face da exposição contínua à fumaça.
Para minimizar os impactos à saúde, especialistas recomendam o isolamento de ambientes internos durante episódios de alta poluição. A médica alergista e imunologista Brianna Nicoletti orienta que o fechamento de janelas e portas nos períodos de pior qualidade do ar é fundamental, sobretudo nos cômodos onde a família permanece maior parte do tempo. Além disso, ela aconselha evitar fontes internas de poluição, como cigarro, velas, incensos e produtos com aromas intensos, além de priorizar a limpeza com panos umedecidos para evitar a circulação de poeira.
Recursos como bacias de água, toalhas molhadas e umidificadores eletrônicos podem aliviar o desconforto causado pelo ar seco, embora não substituam a necessidade de purificadores com filtro HEPA, que podem reter uma grande quantidade de partículas, desde que utilizados em ambientes adequados e com manutenção regular. Para quem precisa se deslocar ao ar livre, o uso de máscaras de pano ou cirúrgicas é insuficiente contra partículas finas; respiradores como PFF2 ou N95, quando ajustados corretamente ao rosto, oferecem proteção superior ao filtrarem eficazmente o ar inspirado.
Segundo Macchione, esses respiradores não filtram gases tóxicos, o que reforça a necessidade de evitar permanência prolongada em áreas altamente poluídas. Exercícios físicos ao ar livre durante episódios de má qualidade do ar também devem ser evitados, pois a hiperventilação aumenta a quantidade de partículas inaladas. Como medida adicional de proteção, a lavagem nasal com solução salina pode ajudar na remoção mecânica de resíduos da mucosa, embora não funcione como uma barreira contra a penetração alveolar.
A exposição repetida à fuligem está associada à redução da função pulmonar e ao desenvolvimento de processos inflamatórios crônicos, podendo levar a sintomas como falta de ar progressiva, chiado no peito, dor torácica ou alterações no nível de consciência. Esses sinais representam a necessidade de atendimento médico imediato, sobretudo em pacientes que não respondem às medicações de resgate habituais. Assim, a adoção de medidas preventivas e o monitoramento da qualidade do ar são essenciais para reduzir os riscos à saúde durante períodos de queimadas intensas.


